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Candy Mountain de Robert Frank e Rudy Wurlitzer
Candy Mountain
1987 - Suíça, França e Canada - Data de estreia: 03-10-2019
Com: Kevin O’Connor, Harris Yulin, Tom Waits, Bulle Ogier, Roberts Blossom, Leon Redbone, Dr. John, Laurie Metcalf, Rita MacNeil, Joe Strummer, Jane Eastwood, Kazuko Oshima, Joey Barron, Greg Cohen, Arto Lindsay, Marc Ribot, Fernando Saunders, John Scofield

A roadtrip de um guitarrista (Kevin J. O’Connor) entre a cidade de Nova Iorque (EUA) e a Ilha do Cabo Bretão (Canadá), à procura do lendário Elmore Silk, um artesão de guitarras. Candy Mountain redescobre o road movie através do elogio da potência criativa da música, contando com as presenças de Tom Waits, Joe Strummer, David Johansen, Dr. John e Arto Lindsay.

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Candy Mountain

O negócio, por inteiro

A ânsia de viajar desde o primeiro momento: a câmara move-se do horizonte nova iorquino para o interior de um loft em construção. Julius (Kevin J. O’Connor) despede-se do emprego e sai da sala. “Não volte”, grita irritado o seu chefe. “Certo”, é a resposta convicta do outro homem. Depois, Julius caminha pelas ruas da cidade e tem o seu primeiro encontro enigmático: ri-se na cara de um porteiro de hotel, enquanto aquele se debate com uma banana.

Candy Mountain é sobre o acto de viajar, num sentido tanto físico quanto mítico, e sobre música. Julius ouve falar de um fabricante de guitarras lendário que tinha desaparecido. Finge conhecê-lo e parte à procura dele. Os esforços de Julius seriam, supostamente, recompensados com uma carreira, e o cliente iria adquirir as preciosas guitarras de Silk. Há muita discussão sobre integridade – conversa de showbiz – e recordam-se antigas memórias do rock’n’roll, mas o principal assunto é o negócio. “Estás a dizer-me que ele desapareceu”, diz um roqueiro arrogante (David Johansen) a respeito de Silk, “É como se ele tivesse assinado um contrato com o William Morris ou algo do género”.

Julius segue o rasto de Silk até ao Canadá, e a sua viagem torna-se uma repetição da história como farsa: “Veio com muito pouco, foi embora da mesma maneira”, diz a antiga amante de Silk (Bulle Ogier). A qualquer lado que Julius vá, volta com menos ainda. Uma das piadas recorrentes de Candy Mountain é a de que Julius troca repetidamente um carro mau por outro ainda pior – frequentemente em situações absurdas – e o seu fundo de maneio desaparece rapidamente.  Ao mesmo tempo, ele vai ganhando discernimento, pelo menos é possível pensar que sim. Quanto mais segue o rasto de Silk, de um modo sinuoso e tragicómico, mais se aproxima da razão que levou o outro homem a desaparecer. Mas só depois de encontrar Silk (um impressionante Harris Yulin), pouco antes do fim do filme, é que é capaz de compreender completamente a sua decisão. “O negócio pegou fogo” é o comentário de Julius no final surreal do filme. Está, assim, preparado para seguir em frente.

Candy Mountain tem os seus trunfos: o tacto de Robert Frank para a composição fotográfica, por exemplo, e uma abordagem (felizmente) despretensiosa ao género popular do road movie, que neste caso – apesar de várias memoráveis participações especiais e música igualmente boa (Dr. John, Tom Waits, Joe Strummer, etc.) – parece completamente liberta do hipsterismo independente dos anos 80, graças à visão breve, muitas vezes mordazmente divertida e sempre crítica, de Wurlitzer, a respeito dos mitos e da sua magia artificial (por uma vez, com os seus óculos de sol postos e as mãos ao volante, O’Connor parece-se com o GTO sonhador e desesperadamente triste de Warren Oates, na apoteose auto-destrutiva do road movie Two Lane Blacktop, que Wurlitzer co-escreveu):

“A vida não é nenhuma montanha de doces, sabes”, diz um motorista que, logo no início do filme, dá boleia a Julius depois de ter sido abandonado numa bomba de gasolina. Pela viagem, o motorista acaba por cobrar 50 dólares a Julius.

Christoph Huber

In Frank Films – the film and video work of Robert Frank, editado por Brigitta Burger-Utzer e Stefan Grisseman, Ed. Steidl, 2009

Festivais e Prémios:

Concha de Prata – Festival San Sebastián

Info:

Versão Original em Inglês, sem legendagem
Género: Drama
Duração: 1h 28min
Classificação: M/14

Ficha Técnica:

Realização: Robert Frank, Rudy Wurlitzer
Argumento: Rudy Wurlitzer 
Direcção de Fotografia: Pio Corradi
Montagem: Jennifer Auge
Som: Daniel Joliat
Produção: Xanadu Films, Ruth Waldburger, Les Films Plain-Chant, Philip Diaz, Les Films Vision 4 Inc, Claude Bonim, Suzanne Héncurt