Lilith de Robert Rossen
Lilith
1964 - EUA
Com: Warren Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda, Gene Hackman

Vincent, um veterano de guerra, regressa a Maryland para trabalhar como terapeuta numa clínica psiquiátrica de luxo. Aí conhece uma jovem que sofre de esquizofrenia, Lilith. À medida que mergulha no seu mundo privado, Vincent vai-se deixando fascinar por Lilith.

------------------

Lilith e eu,
por Jean Seberg

Rossen estava muito aberto às sugestões e contribuições pessoais de cada um, se tal pudesse servir o filme. Não hesitava em eliminar, por exemplo, uma frase de diálogo, ou em modificá-la, se fosse incómoda a um actor. Na penúltima cena do filme, eu tinha de dizer ao Vincent (Warren Beatty): “Sabe qual é o problema da Lilith? Quero possuir todos os homens do mundo.” Eu e o Warren percebemos que algo soava a falso nessa resposta. Repetimo-la várias vezes e continuava a não funcionar. O Warren teve então a ideia de me fazer dizer: “Sabe qual é o problema da Lilith? Ela quer possuir todos os homens do mundo”, e esta maneira de falar de mim na terceira pessoa, o que, aliás, estava em sintonia com a personagem, tornou a cena muito melhor.

Uma coisa em relação à qual Rossen prestou muita atenção foi o respeito pelos doentes mentais. Ficava literalmente estupefacto com a falsidade e o engano dos filmes pseudo-psiquiátricos ou pseudo-psicanalíticos rodados na América. Antes do filme, Rossen, o Warren e eu fomos várias vezes a um estabelecimento sumptuoso para pacientes ricos, nos arredores de Washington, numa daquelas instituições onde se encontra, o que é atroz dizer, a “elite da loucura”. Assistíamos aos psicodramas, e Rossen pediu-me para visitar certas doentes particulares, que ele tinha tido ocasião de observar. No início, os doentes desconfiavam um pouco de nós, porque tinham visto “David e Lisa”, que consideravam uma grande mentira, e tinham medo que fizéssemos a mesma coisa.

Havia uma mulher com cerca de quarenta anos, totalmente esquizofrénica, que se fazia chamar por Rita-Sylvia: se alguém lhe dissesse “Olá, Rita”, ela respondia “Eu chamo-me Sylvia”, e o contrário. Além desse desdobramento, também julgava ser Deus, e queixava-se constantemente do trabalho que isso lhe causava. Mas ela não sabia fazer nada a não ser tricotar, e como era Deus, tricotava corações, pulmões, ovários, órgãos humanos. Uma coisa maravilhosa que nenhum romancista ou cineasta, creio eu, poderia inventar.

Rossen também me tinha pedido para ir ver uma rapariga, que tinha vencido um concurso de beleza na escola e que, aparentemente, caminhava como um animal selvagem. Recebeu-me no seu quarto, completamente escondida sob os lençóis — percebia-se que estava nua — incluindo o rosto. Dela não se via nada. Era evidente que estava a masturbar-se. Cumprimenta-me. Devolvi-lhe o cumprimento e acrescentei que ia partir. Ela perguntou-me porquê. Respondi que era impossível para mim falar com alguém sem poder ver os seus olhos. Ela pediu-me que ficasse, depois, que voltasse para a visitar. À saída, disse-me que queria levantar-se para se despedir: e levantou-se, enrolada nos lençóis, a cabeça escondida como uma criança que faz de fantasma, virou-me as costas e estendeu-me a mão por trás. Depois voltou para a cama. Portanto nunca pude ver como ela caminhava. Quando, no final do filme, o Vincent me confessa que é o responsável pela morte de Stephen (Peter Fonda) e eu lhe digo que não compreendo nada acerca do que ele conta, a cena decorre directamente da atitude daquela rapariga. Eu queria até filmá-la completamente tapada pelos lençóis, mas Rossen disse-me que iria parecer exagerado: chegámos a um compromisso, e mantivemos a ideia da masturbação (claramente sugerida, embora fosse impossível fazer nos Estados Unidos o que Bergman fez em “O Silêncio”!).

Rossen abordou verdadeiramente este filme de um ponto de visto puro, o que, dadas as condições na América, é uma coisa enorme. No final da rodagem, ficou num estado de completa exaustão, no estado de alguém que deu tudo o que podia. E o confronto permanente entre ele e o Warren não ajudou: queria até processá-lo, entre outras infantilidades...

Foi muitas vezes criticado por ser pesado, por ser o elefante numa loja de porcelanas: “Lilith”, pelo contrário, é um cristal magnífico, tão claro e tão puro que tem necessariamente de quebrar. A loucura é muitas vezes sórdida: ele soube, no seu último filme, ir além das aparências, em direcção a algo de muito belo onde se encontram encerrados todos os seus infortúnios pessoais.

Cahiers du Cinéma, Abril 1966
[Trad. Inês Viana]

Info:

Género: Drama
Duração: 114 min
Classificação: M/16