Pull My Daisy de Robert Frank e Alfred Leslie
Pull My Daisy
1959 - EUA - Data de estreia: 03-10-2019
Com: Mooney Peebles (Richard Bellamy), Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Gregory Corso, Larry Rivers, Delphine Seyrig, David Amram, Alice Neel, Sally Gross, Denise Parker, Pablo Frank

Adaptado do terceiro acto de uma peça de teatro, nunca concluída, de Jack Kerouac, intitulada The Beat Generation, Pull My Daisy é um precioso documento sobre o movimento libertário e contracultura beat, que marcou a literatura americana dos anos 50, contando com a participação de alguns dos protagonistas deste movimento underground.

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Pull My Daisy

Espaço Quotidiano

Em 1958, Robert Frank começou a fotografar anonimamente a vida da cidade de Nova Iorque, através das janelas dos autocarros. Um ano depois, as suas fotografias começaram a mover-se e a janela passou a estar aberta. Mas, primeiro, a câmara desliza lentamente pelas paredes, por uma fotografia, um armário e um frigorífico, uma vista de cima mostra uma mesa e algumas cadeiras. Durante os trinta minutos seguintes, aquele apartamento transformar-se-á num palco e num local de encontro. A seguir a porta abre-se, e a divisão contígua encontra-se inundada pela luz do sol, vinda da janela.

Esta abertura visual é seguida por uma abertura verbal e um zoom colossal: “Madrugada no universo” são as primeiras palavras ditas por Jack Kerouac, como se a câmara mostrasse uma cena noutra galáxia. Mas o espectador é rapidamente trazido de volta à concreção doméstica – “A esposa levanta-se. Abrindo as janelas” – e são-lhe dadas as coordenadas de uma existência terrestre num loft de Bowery, no Lower East Side nova-iorquino.  Este mergulho poderoso do espaço para o dia-a-dia não tem correspondência na imagem – mas, ao mesmo tempo, define os pólos, munindo a primeira obra cinematográfica de Frank da tensão que a sustenta. Pull My Daisy é um drama doméstico que vai buscar o seu pathos e a sua ironia à ideia de que esta domesticidade, com toda a sua banalidade, também existe, ao mesmo tempo, “no universo”: as estrelas que procuramos na luxúria e na loucura estão, por um lado, infinitamente distantes, e, por outro lado, logo ali ao virar da esquina.

O aspecto decisivo deste filme é que ele apresenta os opostos profanidade e poesia, como sendo análogos à polaridade dos sexos. “A esposa”, representada pela actriz Delphine Seyrig, é “uma pintora”; por outras palavras, além de cuidar casa ela é claramente a responsável por assuntos artísticos, em oposição ao seu marido, o trabalhador ferroviário Milo (representado pelo pintor Larry Rivers). Ao mesmo tempo, ela representa, ao longo do filme, o contraste com o mundo boémio dos poetas Beat, ao qual pertencem os amigos de Milo. 

Devido ao seu relacionamento na “vida real” como amigo e colega de Allen (Ginsberg), Gregory (Corso) e Peter (Orlovsky), Kerouac é incapaz de ser objectivo. Aproveitando uma autoridade quase ilimitada no filme, é narrador omnisciente (cujas palavras antecipam sempre o que a imagem mostra), comentador, dobrador de vozes e improvisador, cujas cascatas de lirismo competem com a banda-sonora do compositor de jazz, David Amram. Porém, apesar dos esforços heróicos do grupo Beat – “lutando para serem poetas” – para eliminar a barreira entre vida e arte, esta permanece intacta. Logo após a mulher de Milo dar uma bofetada ao marido, inicia-se uma panorâmica pelo apartamento, o mobiliário banal realçado poética e mitologicamente pela voz off-camera de Kerouac. A santificação do profano nas perguntas de Allen – “O mundo é sagrado? O basebol é sagrado?” (uma referência óbvia ao “Footnote to Howl” de Ginsberg, escrito quatro anos antes) – permanece um empreendimento precário. De forma convencional, no final do filme, o grupo sai do apartamento liderado pela irascível e obstinada mulher. Milo dá um pontapé na cadeira de baloiço e segue os amigos, que o chamam.

Klaus Nüchtern

In Frank Films – the film and video work of Robert Frank, editado por Brigitta Burger-Utzer e Stefan Grisseman, Ed. Steidl, 2009

Info:

Versão Original em Inglês, sem legendagem
Género: Curta-metragrem
Duração: 30 min
Classificação: M/14

Ficha Técnica:

Realização: Robert Frank e Alfred Leslie
Direcção de Fotografia: Robert Frank
Montagem: Leon Prochnik, Robert Frank, Alfred Leslie
Música: David Amram
Produção: G-String Enterprises, Walter Gutman