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04-06-2019

25 filmes de Luis Buñuel: “Um Buñuel sobretudo mexicano” e outras obras-primas

Com início previsto para o dia 11 de Julho, a Leopardo Filmes está a organizar um extenso ciclo dedicado a um dos nomes maiores da arte no século XX: o cineasta (e também escritor) LUIS BUÑUEL (Calanda, Espanha, 1900 — Cidade do México, 1983), com um especial enfoque no chamado “período mexicano”, extremamente rico, e muito menos conhecido, diríamos mesmo, praticamente desconhecido em Portugal (dos 25 filmes que fazem parte deste programa, muitos deles são inéditos comercialmente no nosso país, e foram exibidos apenas na Cinemateca Portuguesa, que no início dos anos 80 dedicou um ciclo ao cineasta).

Serge Daney, a quem fomos buscar o título acima, escreveu, a propósito da exibição em França de muitos destes títulos “mexicanos”, num festival de Outono nos anos 80, organizado com Paulo Branco, nas célebres “Semaines des ‘Cahiers du Cinéma’”: “Conhecemos o rasgo de génio de Buñuel. Qualquer que seja o sistema de produção no qual trabalha, mais do que saber correr o risco e ultrapassá-lo, Buñuel é sempre ele próprio. É por isso que o mais individualista dos cineastas, longe de fazer um discurso sobre as virtudes do individualismo, provou, nos vários sítios por onde passou e trabalhou, que era irredutivelmente Buñuel.”

A sua “obra”, começou-a em Madrid, para onde fora viver e estudar (Buñuel considerou os oitos anos vividos em Madrid, onde se ligou à famosa geração de 27, da qual faziam parte os poetas Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti, e o pintor Salvador Dali, como os “mais ricos e vivos da sua vida”), no movimento “ultraísta”, com os seus amigos Lorca e Dali, influenciados por Dádá, naquilo que J. Francisco Aranda, que escreveu a melhor biografia de Buñuel, classifica já como uma espécie de “surrealismo gestionário”; continuou em Paris, para onde partiu em 1925, e onde foi secretário de Eugénio d’Ors, escreveu poesia, teatro e crítica de cinema — foi ao ver Der Müde Tod / A Morte Cansada, de Fritz Lang que quis ser cineasta —, criou cenários e figurinos para peças de teatro. Em 1928 aderiu ao movimento surrealista, no qual esteve com Breton, Aragon, Éluard, Dali, Magritte, Max Ernst, Man Ray ou Tanguy, e começou a trabalhar no cinema, como assistente de realização. Escreveu argumentos para os quais não encontrou financiadores, e, com dinheiro emprestado pela mãe, realizou, em 1929, o seu primeiro filme, Un Chien andalou, que escreveu a meias com Dali e foi “o primeiro filme inteiramente surrealista”. Seguiu-se L’Âge d’or (1930), financiado pelo visconde de Noailles, que na sua estreia causou imenso escândalo e foi retirado de cartaz “por razões de ordem pública”. A sua exibição pública esteve proibida durante cinco décadas, tendo durante esse tempo tido apenas exibições privadas, no que foi, como refere João Bénard da Costa, “o mais longo caso de censura da história do cinema”. E acrescenta: “Mas a sua reputação foi imediatamente mítica e deu a Buñuel uma aura imensa”.

Por isso, surgiu um convite de Hollywood, onde conheceu Chaplin, Sternberg e Einstein (no seu livro de memórias, redigido por Jean-Claude Carrière, Mon dernier Soupir / O Meu Último Suspiro, refere esses e outros encontros), e onde não filmou, rejeitando algumas propostas, e regressando a Espanha, onde filmaria Las Hurdes / Terra sem Pão (1932), um documentário sobre uma das regiões mais pobres de Espanha, que, por mostrar “uma imagem miserável do país” (curiosamente a mesma crítica que foi feita, na mesma altura, a Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira), viria também a ser proibido. Buñuel, que aderira à causa republicana durante a Guerra Civil, na sequência da vitória de Franco acabaria por pedir e obter asilo político nos EUA (vivia na altura em Nova Iorque), acabando por, em 1946, depois de alguns projectos que não viram a luz, ir parar ao México, onde o produtor Oscar Dancigers o convidou a filmar, dando assim início ao chamado “período mexicano”, no qual Buñuel insuflou em melodramas ou comédias comerciais, que tinham muito público no México, a moral e os processos do surrealismo, ao qual o poeta e crítico J.F. Aranda chamou-lhe “um ‘tour de force’ imenso na história do cinema”. Foram 9 anos e 16 filmes, e muitos críticos sustentam que essa foi a grande época de Buñuel. O próprio realizador defendeu vários destes filmes como sendo dos melhores que realizou.

Os primeiros passaram, na altura, despercebidos fora do México, mas, a partir de Los Olvidados (1950), que foi seleccionado para Cannes, onde obteve o prémio da melhor realização e grande aclamação da crítica, a fama de Buñuel regressaria. Voltamos a Daney: “[No ‘período mexicano’] há, não somente os filmes que estão indubitavelmente entre os mais belos e mais subtis que Buñuel realizou (Los Olvidados, 1950, El, 1952, Ensayo de un Crímen, 1955), mas somos igualmente obrigados a rever regularmente os outros, para termos a certeza se no meio desta produção não há algumas joias esquecidas. […] É o caso da adaptação de O Monte dos Vendavais (1953), que achamos, com razão, muito superior à ignóbil versão de Wyler; é o caso de El Bruto […], ou A Filha do Engano, que nos dá sempre tanta vontade de rir […]”.

Com Nazarín (1959) ganhou o prémio máximo do festival de Cannes, a Palma de Ouro, e com A Febre Sobe em El Pao (1959, o último filme de Gérard Philippe), Buñuel encerra esta sua fase mexicana, regressando a Espanha em 1960, para realizar o celebérrimo Viridiana, que provocou um escândalo tão grande como L’Âge d’or, proibido de imediato em Espanha (em Portugal só estrearia dois anos depois do 25 de Abril de 1974), mas com o qual, ganharia, de novo, a Palma de Ouro. Depois de alguns processos judiciais, o filme estreou em vários países da Europa em 1962 e foi o maior sucesso obtido por Buñuel até aquela data, finalmente aclamado como um dos maiores cineastas de todos os tempos (João Bénard da Costa). E volta a filmar no México — onde mantinha residência; Buñuel naturalizara-se mexicano em 1949 —, dando-nos outros dois grandes filmes: El Ángel Exterminador (1962) e Simón del Desierto (1965).

A partir de 1963, com Diário de uma Criada de Quarto, começa a frutuosa ligação ao grande argumentista Jean-Claude Carrière, que colaborará com ele até ao fim. Juntos, construíram ainda aquele que foi o seu maior êxito de bilheteira, A Bela de Dia (1964), com Catherine Deneuve, que voltaria a trabalhar com Buñuel em Tristana (1970), outra das suas obras mais famosas, esta filmada em Espanha. Registem-se, ainda, O Charme Discreto da Burguesia (1972), outro dos seus grandes sucessos, Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro, e Este Obscuro Objecto do Desejo (1977), o seu último filme.

Amado entre os pares (Hitchcock dizia que era o cineasta seu contemporâneo que mais lhe interessava; Oliveira, tinha-o, a par de Dreyer, como o maior dos cineastas, e homenageou-o com Belle Toujours, no qual retoma as personagens de Séverine e Husson, quarenta anos depois; Godard, ainda recentemente, numa das suas raras entrevistas, referia os seus três primeiros filmes e ainda Los Olvidados, do período mexicano, entre os que mais lhe interessavam em toda a história do cinema…), Buñuel é, desde o início da sua carreira, autor de uma obra ímpar.

* Parte da informação para a redação deste texto foi recolhida de um extenso e magnífico texto de João Bénard da Costa (in Escritos Sobre Cinema, Tomo 1, vol. 1, Ed Cinemateca Portuguesa).

 

Títulos a exibir — muitos deles inéditos em sala em Portugal, vários deles em cópias digitais restauradas:

UN CHIEN ANDALOU (1929) - Luis Buñuel (co-realizado com Salvador Dalí)
L’AGE D’OR (1930) - Luis Buñuel
LAS HURDES, TIERRA SIN PAN / TERRA SEM PÃO (1932) - Luis Buñuel
LOS OLVIDADOS (1950) - Luis Buñuel
SUSANA, DEMONIO Y CARNE (1951) - Luis Buñuel
LA HIJA DEL ENGAÑO / A FILHA DO ENGANO (1951) - Luis Buñuel
UNA MUJER SIN AMOR (1952) - Luis Buñuel
EL BRUTO (1953) - Luis Buñuel
LAS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE / AS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE (1953) - Luis Buñuel
ÉL (1953) - Luis Buñuel
ABISMOS DE PASIÓN / CUMBRES BORRASCOSAS / O MONTE DOS VENDAVAIS (1954) - Luis Buñuel
ENSAYO DE UM CRIMEN / ENSAIO DE UM CRIME (1955) - Luis Buñuel
LA MORT EN CE JARDIN / LABIRINTO INFERNAL (1956) - Luis Buñuel
NAZARÍN (1958) - Luis Buñuel
LE FIEVRE MONTE À EL PAO / A FEBRE SOBE EM EL PAO (1959) - Luis Buñuel
VIRIDIANA (1961) - Luis Buñuel
EL ANGEL EXTERMINADOR (1962) - Luis Buñuel
LE JOURNAL D’UNE FEMME DE CHAMBRE / DIÁRIO DE UMA CRIADA DE QUARTO (1963) - Luis Buñuel
SIMÓN DEL DESIERTO (1964) - Luis Buñuel
BELLE DE JOUR / A BELA DE DIA (1966) - Luis Buñuel
TRISTANA (1969) – Luis Buñuel
LA VOIE LACTÉE / A VIA LÁCTEA (1969) - Luis Buñuel
LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE / O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA (1972) - Luis Buñuel
LE FANTÔME DE LA LIBERTÉ/ O FANTASMA DA LIBERDADE (1974) - Luis Buñuel
CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR / ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO (1977) - Luis Buñuel

Com início a 11 de Julho, este programa vai prolongar-se até ao final do ano, por salas de todo o país. Desde logo, em Lisboa, no Espaço Nimas; no Porto, no Teatro Campo Alegre; em Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente; em Braga, no Theatro Circo; em Setúbal, no Auditório Charlot; na Figueira da Foz, no Centro de Artes e Espectáculos.

Muitas das sessões serão acompanhadas por debates e masterclasses, que contarão com a presença de especialistas (contamos poder ter entre nós Jean-Claude Carrière e Alain Bergala, entre outros, num programa a anunciar mais tarde) e ainda leituras de poemas e da peça de teatro Hamlet, de Buñuel, traduzidos para o português pelo poeta Mário Cesariny, cujas edições foram publicadas na editora Assírio & Alvim.