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08-02-2018

À Procura de Joseph Beuys

“... reconciliar a parte e o todo, buscar a energia essencial de todas as acções, renunciar a toda a acumulação artística supérflua dos últimos séculos (indiferença estética) e afirmar uma nova valência estética, uma arte necessária.”
Ernesto Sousa, O Estado Zero: Encontro com Joseph Beuys, República
28 Dezembro 1972
 

A simples menção do nome, constituído por apenas cinco letras — B-E-U-Y-S — é suficiente para transportar qualquer estudante, conhecedor ou contemplador de arte no tempo presente a um espaço de provocação dentro do qual o conceito de arte, do fazer arte, do querer arte, do ser arte, é a junção das peças num todo universal. Não era só no teor estético da sua obra que o escultor e artista conceptual alemão, Joseph Beuys, se focava, mas antes na estética teórica do conceito à qual subsequentemente poderia seguir-se um inquérito sobre a estrutura da sociedade, sobre a textura do pensamento. Conduzido por um poderoso magnetismo, o da confrontação com um passado que pode e dá lugar a um discurso vanguardista, Beuys distinguiu-se numa sociedade alemã nos anos cinquenta que, embora economicamente estável, estava a experimentar várias dificuldades em confrontar e aceitar o seu passado Nacional-Socialista. Beuys, que participou na Segunda Guerra Mundial como operador de rádio e piloto da Luftwaffe, desenvolveu uma prática artística que confrontava os alemães com o seu próprio desenvolvimento enfraquecido, resultado da repressão colectiva da guerra. Por esta razão e motivado por um enorme desejo de ajudar a Alemanha a regenerar-se, Beuys adicionou à tradição da arte do século XX a vulnerabilidade do espírito alemão no contexto espacial e temporal do pós-guerra de forma exímia.
 
Através do uso de uma enorme quantidade de objectos — maioritariamente não tradicionais, especialmente na criação do que iria ser mais tarde contemplado como a exacerbação de um movimento emocional, um sentimento acrescentado a algo percepcionado com dimensões por definir – gordura, feltro, cera de abelha, objectos domésticos comuns, lixo —, Joseph Beuys deu início à produção de uma arte confrontacional que até hoje permanece de difícil compreensão e talvez por essa razão, altamente influente. Em comparação com o artista americano Andy Warhol, o qual destacou Beuys com várias serigrafias da imagem agora icónica do artista, o seu trabalho é intencionalmente abstracto e desafiante, com o seu vocabulário formal profundamente mergulhado na metáfora e no sarcasmo. Pioneiro na arte da performance, Beuys usava estes objectos como materiais esculturais, na criação de uma energia física e psíquica com a qual, no rescaldo do evento, qualquer um se podia relacionar a nível pessoal, social e histórico.
 
Agora reconhecido maioritariamente pela sua implementação do conceito de arte na sociedade não como algo que a complementa, mas uma constituinte inerente, do qual a sociedade e, por isso, o Homem, não se pode separar, o artista dedicou os últimos vinte anos da sua vida ao activismo artístico e socioeconómico, tendo sido um dos membros fundadores do Partido Verde da Alemanha. A sua última contribuição foi essa chamada escultura, a “escultura social”, que Beuys considerava urgente e pertinente: a constituição da ideia da arte e a criatividade que dela emana dentro do Homem, mas que é, quase de forma autónoma, ensinada como uma alienação, um propósito anti-capitalista que ele sentia à sua volta. No querer ser Homem ele via um adeus ao conceito do que é ser Humano. Na arte estava a humanidade e a liberdade que a caracteriza, afirmava Beuys.
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BEUYS, um retrato íntimo do artista pioneiro Joseph Beuys
Seleccionado para Competição na 67º Edição do Festival de Berlim e parte da Selecção Oficial do Doclisboa ’17, o documentário de Andres Veiel, faz uso de imagens de arquivo inéditas para mapear um estudo pessoal e social do homem de chapéu e olhos azuis-cinza que proclamava: “Cada homem é um artista”. A arte abria as portas ao pensamento e nele, ao estímulo humano de libertação.
Agora, trinta anos após a sua morte, e tendo em conta a visão à frente do seu tempo, que o colocou num contexto de debates sociais e artísticos actualmente relevantes, BEUYS é um documentário que projecta uma narrativa através de imagens de arquivo, e nela procura a abertura à possibilidade do mundo “do homem” antes “do artista”, para assim depois conseguir apresentar o ser humano, a sua arte e a vulnerabilidade com a qual faz a ligação entre os dois.
Segundo Joseph Beuys, a arte começa quando questiona perguntas essenciais sobre a humanidade. Não quando procura responder. “Há apenas sensação, e se assim não fosse não haveria qualquer interesse.” No final, Andres Veiel traça um retrato de um espaço estrutural, uma cronologia espacial invés de temporal, da procura pelo artista cujo apelido de cinco simples letras juntas faz qualquer um relembrar o homem que reestruturou a textura estética da arte no Mundo.

Susana Bessa