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02-03-2018

Amor & Intimidade - Sessão: UMA LIÇÃO DE AMOR

O Ciclo comentado Amor & Intimidade continua no próximo dia 7 de Março, quarta-feira, pelas 19h15 no Espaço Nimas em Lisboa, com a exibição de “Uma Lição de Amor” (1954) de Ingmar Bergman.

A sessão contará com a presença de dois convidados: Olga Roriz, premiada coreógrafa e bailarina, que prepara uma profunda homenagem a Ingmar Bergman - "A meio da noite" -com estreia marcada para Abril e uma digressão nacional e internacional ao longo deste ano em que se comemora o centésimo aniversário de Ingmar Bergman; e António Júlio Rebelo, professor e autor do livro "A Maldade no Cinema de Ingmar Bergman" (Colibri).

A conversa será moderada por Bruno Marques, investigador do Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e um dos curadores deste ciclo.

UMA LIÇÃO DE AMOR / EN LEKTION I KÄRLEK

de Ingmar Bergman

com Eva Dahlbeck, Gunnar Björnstrand, Harriet Andersson, Ingmar Bergman

Suécia, 1954

 

«Não era preciso muita imaginação para que os comentadores falassem deste filme como a “Regra do Jogo” de Bergman. Mas se é evidente a vénia a Renoir, nem “jogo” nem “regras” têm nada a ver com as dele. Em certo sentido (a “frivolidade”) estamos mais próximos do espírito dos autores setecentistas. Mais próximos também de Ophuls, quando fazia dizer a um dos seus personagens que só as pessoas frívolas pensam que a frivolidade é frívola.

[…] De certo modo, o adeus à juventude marcado por SOMMARLEK, pela segunda “história” de KVINNORS VÄNTAN e por MONIKA terminou. Começou com esta “frívola comédia”, a era da maturidade.

Algures, numa entrevista, Jorge Silva Melo dizia lamentar que os cineastas não envelhecessem sempre com os seus actores, e citava Rohmer, dizendo ter pena que o cineasta não nos mostrasse as actrizes e actores de MA NUIT CHEZ MAUD ou de LE GENOU DE CLAIRE com a idade que hoje têm. Bergman é a excepção a essa regra. E não será forçar de mais a autobiografia, sugerir que, vendo do tal mirante a sua jovem mulher na praia [a actriz Harriet Andersson, com quem começara a viver depois de MONIKA, por quem estava perdidamente apaixonado (ela tinha 21 anos, ele 35)] pensasse, como Gunnar Björnstrand, se não estava a ficar velho e com ele se identificasse. Talvez essa situação – entre duas ideias – lhe tenha permitido aqui, ser tão “sage” e tão irónico.

Por isso o filme se interroga no início entre a comédia e a tragédia, passando da caixa de música aos raios e coriscos que nos levam a David. Se não fosse “a bondade dos deuses” aquela comédia podia ter acabado mal e não é difícil apercebermo-nos onde se podia ter dados a introdução dos futuros mundos trágicos de “amores frustrados”. Aliás, Harriet Andersson vive como tragédia a separação dos pais, sem ainda ter o recuo destes para a volver em comédia. E é extremamente sintomático que esse “flash-back” (o grande desespero de Harriet perante a “passagem para o lado de lá” da sua melhor amiga) surja no comboio, como seja ainda no comboio que sejam recordados a primeira traição a Marianne, o casamento com Marianne e a comovente relação dos velhos pais. É em viagem que, ora David, ora Marianne, recordam a geração anterior e a seguinte, o princípio do seu amor e o fim do seu amor. A desarrumação cronológica só ilumina melhor a desarrumação das vidas, das memórias, dos apelos da obscuridade e dos apelos da claridade.»

João Bénard da Costa, Ingmar Bergman – As Folhas da Cinemateca, ed Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

Organização: Cluster Photography and Film Studies – Instituto de História da Arte da FCSH-NOVA, Medeia Filmes e Leopardo Filmes
Curadoria: Bruno Marques, Cláudia Madeira, Luís Mendonça, Mariana Gaspar e Sabrina D. Marques.

Bilhetes: 5 euros | Classificação: M/12