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02-07-2018

Lançamento Pack DVD «Dos anos 60 à Perestroika»; Debate com Críticos Russos

Boris Nelepo, crítico e programador de cinema, vive em Moscovo. É editor-chefe da revista de cinema online Kinote e colaborador da revista Séance. Já fez a curadoria de vários festivais de cinema e instituições artísticas e é o consultor Russo para o Festival Internacional de Cinema de Locarno. Foi membro do júri do Festival Internacional de Cinema de Roterdão em 2013, entre outros. Estará no cinema Medeia Monumental no Lançamento do Pack DVD “Dos Anos 60 à Perestroika” no próximo dia 6 de Julho às 21h. Nessa sessão apresentará o filme Nazidanie, de Boris Yukhananov e Alexandr Shein, inédito comercialmente em Portugal (o filme foi exibido na última edição do Doclisboa), e participará num debate com os críticos Alexey Artamonov e Denis Ruzaez.

Uma Introdução  

“O século XX alvoreceu com festividades, manifestações de júbilo e os prognósticos mais optimistas. Apenas 11 dias atrasado para a festa, considero-me ainda da mesma idade que este século.” É esta a frase de abertura do último filme E Ainda Acredito, do lendário realizador soviético Mikhail Romm (1901 – 1971), um dos melhores professores de cinema da URSS, que deu aulas na VGIK1 a celebridades como Andrei Tarkovsky, Nikita Mikhalkov e Andrei Konchalovsky.

Na origem, E Ainda Acredito era suposto ser denominado World ’68, e mais tarde chegou a ser renomeado como The World of Today. Concebido inicialmente como um desapaixonado ensaio de grande escala sobre as origens do século XX e a realidade que se lhe seguiu, um desamparado Romm sentiu o filme fugir-lhe, e infelizmente acabaria por não conseguir concluí-lo antes da sua morte. A última versão foi montada em conjunto por Marlen Khutsiev e Elem Klimov. É assim que Khutsiev descreve o processo de montagem: “ Escolhi aquele início, porque há duas gravações de som de Romm, ambas com o título “Eu sou da mesma idade que este século”. Mikhail Ilyich tinha-as feito a pensar no filme. Estes registos foram o meu ponto de partida; a sua voz, a tonalidade do seu discurso possibilitou a ligação com O Fascismo Ordinário (1965). Foi complicado compilar as duas versões, uma expressão, uma frase ao mesmo tempo. Para além das actualidades, utilizámos também algumas imagens de O Fascismo Ordinário. Decidimos acabar o filme com esta citação: “E ainda acredito que o homem é consciente…”

Não é de admirar que Marlen Khutsiev tenha escolhido este segmento em particular, tendo em conta o seu fascínio pelo início do século XX naquela altura – um assunto que o prendeu enquanto trabalhou em Infinitas, um trabalho de ficção que, de alguma forma, o documentário E Ainda Acredito prefigurava. Infinitas (1991), o último filme de Khutsiev até à data, não é apenas o seu opus magnum mas também uma espécie de retrospectiva dos seus filmes anteriores, a transbordar de alusões. Talvez apenas igualada por O Espelho, de Tarkovsky e A Arca Russa, de Sokurov, a realização mais labiríntica de Khutsiev reflecte sobre a natureza do tempo e a sucessão de gerações. Numa cena assombrosamente bela, um estranho dá ao protagonista uma mão cheia de daguerreótipos gastos e cita um poema de Pushkin, ao qual ele responde, “Tu falas como se fosses seu contemporâneo.” 

Este ciclo ajuda-nos a compreender de forma extensiva como o cinema captou o turbulento século XX na Rússia. Cronologicamente, o primeiro dos filmes escolhidos é o eterno clássico O Couraçado Potemkine (1925); o mais recente, Nazidanie (2017), uma meditação enigmática sobre o destino do jogador de futebol Zinedine Zidane. Realizado por Boris Yukhananov e Aleksandr Shein, é uma espécie de manual sobre como interpretar imagens visuais que, simultaneamente, dissecam a muitopublicitada altercação entre Zidane e Marco Materazzi na final do mundial de 2006, revelando nele uma tragédia Grega, um tratado religioso e uma abordagem cabalística sobre a interconexão de todas as coisas no universo. 

Não teria existido uma Rússia do século XX sem Chekhov. Duas das mais brilhantes adaptações para o grande ecrã de obras suas, Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) de Nikita Mikhalkov, e O Tio Vânia (1970), de Andrey Konchalovsky, fazem parte do ciclo. Independentemente do século, não haveria uma Rússia, ponto final, sem a Europa – uma relação delicada que o realizador Aleksandr Sokurov coloca no centro da sua obra e que ganha uma particular relevância no actual clima cultural do país, construído à volta do sentimento “A Rússia não é Europa”. Das 11 estimulantes sugestões de filmes de Sokurov distribuídas pelo ciclo, gostaria de salientar a sua recriação livre de Madame Bovary de Flaubert, intitulada Save and Protect, na qual se fundem livremente temas existenciais, e grosso modo, pela primeira vez no cinema soviético, se explora o erotismo e a natureza da atracção sexual. O ciclo também inclui uma mini-retrospectiva de Larisa Shepitko, uma das maiores cineastas russas, que, infelizmente, poucos filmes realizara, antes de uma morte prematura. Em intrigante diálogo com Chuva de Julho (1966), de Marlen Khutsiev, o impiedoso Asas (1966) de Shepitko dá-nos um dos testemunhos mais amargos e rigorosos dos anos 60 soviéticos. O crítico de cinema russo Miron Chernenko chama a Chuva de Julho “um réquiem pela época”, no qual as personagens de A Porta de Ilych tinham envelhecido, não apenas três anos, mas todo um “um cataclismo histórico”. Eis o que Chernenko escreve sobre o assunto: “Khutsiev nunca esteve mais perto de alcançar a sua visão perfeita de cinema como nas cenas finais de Chuva de Julho, onde, de facto, o mundo existe simultaneamente em vários níveis, numa imensa quantidade de superfícies temporais, entrelaçadas numa teia audiovisual complexa, colidindo e distanciando-se de novo nas mais inesperadas configurações e polígonos… É disto, precisamente – das ambiguidades mais inesperadas do mundo, da inesgotabilidade da história – que falam os olhares tensos, receosos e distantes, trocados entre os veteranos, que choram, em público, frente ao Teatro Bolshoi, pela primeira vez em vinte anos de esquecimento histórico, e os jovens, já desgastados pela escola e pela família, já a caminho dos anos 70… A cada um deles Khutsiev empresta, momentaneamente, o seu olhar que não pestaneja, que não é sentimental, nem romântico, liberto de ilusões, e cada um irá descobrir o seu próprio outro; uma época, uma história, um futuro…”

Um cometa que cintilou durante um escasso período de tempo e assim atravessou o céu cinemático, Vitali Kanevski, deixou para trás duas obras complementares, Não te mexas, Morre e Ressuscita e Uma Vida Independente. Ambas testemunham uma janela de oportunidade aberta-e-fechada que a Perestroika criou e a subsequente desintegração da União Soviética. Uma nova era se avizinhava nessa altura, assombrada pelo trauma ainda por processar da guerra Chechena, um tópico quase-tabu no cinema russo, apenas sugerido em Alexandra, de Sokurov, e Casa de Loucos, de Konchalovsky (o último, no entanto, não é tecnicamente passado na Chechénia). Finalmente, a Rússia de hoje em dia é retratada por Andrey Zvyagintsev, um realizador autodidacta que passou os anos de formação no agora defunto Museu de Cinema de Moscovo. Após o seu filme de estreia O Regresso ter recebido o Leão de Ouro em Veneza, Zvyagintsev tem, desde aí, dominado a complexa arte de combinar a alegoria tipo-fábula com a crítica social incisiva. Embora desviando-se por vezes para uma grandiloquência vaga, as suas perspicazes tentativas de localizar os “pontos de pressão” do corpo social da Rússia permanecem invariavelmente ambiciosas, sem nunca transbordarem para o mero realismo.

Boris Nelepo (Moscovo, Junho de 2018)