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28-11-2018

Medeia Filmes Homenageia BERNARDO BERTOLUCCI

Autor de muitos dos grandes filmes dos últimos cinquenta anos, Bernardo Bertolucci, ‘le dernier empereur’ de um cinema italiano com forte projecção internacional, no seguimento de autores como Pasolini (com quem começara), Visconti, Rossellini, Fellini ou Antonioni, deixou-nos esta semana.

Foi um dos padrinhos do cinema Medeia Monumental. Na abertura, apresentou ali 1900, épico sobre as primeiras décadas do século XX italiano, ao lado do produtor Paulo Branco, amigo de longa data. Há dez anos, o LEFFEST, na sua segunda edição, ainda Estoril Film Festival, recebia e homenageava o cineasta italiano, com uma retrospectiva da sua obra e a publicação de um catálogo, no qual participaram amigos e admiradores, os seus actores e actrizes, críticos e fotógrafos; Bertolucci recebeu um prémio do festival e deu uma lição de cinema.

A Medeia Filmes presta-lhe uma homenagem, com a exibição de O ÚLTIMO TANGO EM PARIS.

Segunda, 3 de Dezembro, 21h30, Espaço Nimas, Lisboa
O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci (1972)
Conversa com Gabriella Cristiani e Roberto Perpignani (montadores de filmes de Bertolucci)

Terça, 11 de Dezembro, 19h, Teatro Rivoli, Porto
O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci (1972)


Ultimo Tango a Parigi / O Último Tango em Paris (1972)

A década de 50 foi, de facto, “os anos Brando”. A imposição de um “estilo” e de um “ícone”. E o sucesso internacional com uma série de interpretações que ficaram na história do cinema […]. Mas os anos sessenta representam uma “queda” inesperada, em particular na qualidade dos filmes em que participou. […]

Dir-se-ia que a popularidade de Brando (pelo menos na bilheteira) chegara ao fim. Eis senão quando tem um regresso sensacional com dois filmes, feitos de uma assentada no mesmo ano de 1972, que o colocaram de novo no “top” da popularidade e no panteão das estrelas mais bem pagas do cinema. […]

Primeiro com The Godfather/O Padrinho, de Francis Ford Coppola, que lhe deu o segundo Óscar, depois com o filme de Bertolucci, o filme “escândalo”, Ultimo Tango a Parigi, que provocou uma corrida à margarina nas mercearias.
Para Bertolucci, começa também outra dança com este tango. O triunfo internacional e uma mudança de marcha no seu rumo. De La Commare Secca a Strategia del Ragno os seus filmes encontravam-se sob o primado da política. A partir de Ultimo Tango a Parigi é a instância sexual que passa a dominar a sua obra (mesmo 1900, apesar da sua narrativa histórica). Aliás o genérico e a atmosfera do filme são bastante importantes. O primeiro apresenta duas pinturas de Francis Bacon, que teve recente exposição de pinturas em Serralves, e a quem a RTP2 dedicou recentemente espaço nobre, com um documentário sobre a sua vida e obra, e o “biopic” Love Is a Devil. Este título poderia também aplicar-se ao filme de Bertolucci, que o coloca sob o primado do pintor, não apenas com o genérico mas também pela frequência com que ele e o seu operador Vittorio Storaro (num trabalho magnífico) enquadram grandes planos através de vidros deformados que dão aos rostos uma singular semelhança com os quadros de Bacon. As referidas pinturas representam duas figuras, uma masculina e outra feminina que podem ser um olhar de antecipação sobre as personagens de Paul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider). […]

Apesar do seu tom trágico, Ultimo Tango a Parigi pode ser visto também como uma comédia “negra”, explorando algumas formas de grotesco, herdeiras do burlesco mudo: a cena do rato, e mesmo a da margarina podem contar-se entre estas. Aliás não é só esta relação que mostra Bertolucci às voltas com a sua inevitável cinefilia. Duas outras cenas a testemunham de melhor forma, e revelam melhor ainda a faceta cómica do filme: a “história” do passado de Paul e o seu encontro com o amante da mulher. No primeiro caso, a biografia da personagem corresponde, em grande parte, às personagens que Brando interpretou no cinema (repare-se: foi pugilista como em On the Waterfront, andou pela América Latina como o revolucionário de Quemada!, pelo Hawai como em Mutiny on the Bounty, além de ser, então, proprietário de uma ilha nos Mares do Sul, etc.). No segundo caso, o diálogo entre os dois homens (e Massimo Girotti fôra, ele também, um popular galã na década de 40) é uma espécie de confissão mútua dos respectivos problemas de envelhecimento e de estar na vida. Isto resulta do método de Bertolucci em dirigir os actores, dando-lhes espaço de manobra nos diálogos, permitindo-lhes uma liberdade de improvisação que reforça a identificação entre personagem e actor.

Manuel Cintra Ferreira
Texto originalmente escrito no contexto do Ciclo “Cinquenta Anos Depois dos Anos Brando”, em abril de 2003. Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema


Bernardo Bertolucci, último tango

Sentei-me na mesma mesa dele, uma noite, em Cannes, na esplanada do Carlton. Culpa do senhor Manoel de Oliveira, e também, sejamos justos, do Paulo Branco, magnânimo nos convites. Eram os meus tempos de jovem crítico de cinema, tarefa para que não tinha competência, por não haver nenhuma competência em ser-se crítico. Bernardo Bertolucci, que marcou o imaginário da minha geração com o Último Tango em Paris, estava nessa mesa e tenho agora pena de não o ter conhecido uma migalha que fosse das migalhas que dessa mesa possam ter caído. Lembro-me que discutia com Oliveira e a Isabel Branco as minhas objecções, mais emocionais do que críticas, ao Non ou a Vã Glória de Mandar. E discutimos tanto que saímos dali, em peripatética parlamentação, ao longo da Croisette, do Carlton para o Majestic, levando a deitar o senhor, magnífico e tolerante Manoel de Oliveira.

Bernardo Bertolucci pertence a essa geração de realizadores literariamente muito bem formados, uma mão em Stendahl outra em Borges, com um sentido da transgressão que absorveu Bataille e a Sade chama meu próximo. Visualmente formado em Pasolini e Francis Bacon, com a sombra de Godard em cima. Não se veja nisto nenhuma ironia em ainda menos depreciação. Veja-se apenas aquilo que é e que os filmes de Bertolucci reclamam: pertencer a um tempo.

Em três filmes, 1900, Último Tango em Paris, O Último Imperador, filmando tempos diferentes, filmou sempre o nosso tempo, a nossa moralidade ou amoralidade, a nossa angustiada misantropia (lembrem-se de Marlon Brando no Tango), a nossa insólita reclusão (lembrem-se da cidade proibida do Imperador), o nosso fascínio pelos requebros irracionais da ideologia (do Conformista a 1900). Podemos querer mais do cinema, como queremos e sabemos que Stendahl e Borges nos dão mais do que o tempo que foi o tempo deles, mas um cinema que nos restitui o nosso tempo e nos restitui ao nosso tempo, merece ser saudado pela sua inteligência. Morreu hoje Bernardo Bertolucci: nos filmes dele tinha morrido a derradeira visão trágica do sexo no cinema.

Manuel S. Fonseca, paginanegra.pt


[…] acho que mesmo O Último Tango em Paris é muito mais do que as tais performances sexuais. No seu confronto de homem que com a idade quer provar a si próprio a virilidade com uma jovem atraente, Marlon Brando é comovente (isso mesmo, comovente) — basta lembrar o incrível monólogo em grande plano em que o olhar parece vaguear para uma qualquer altura […]

Augusto M. Seabra, Público