Ciclo "FOR EVER GODARD" – Teatro Campo Alegre

22.02 13.03

Teatro Campo Alegre - Porto

“Não faço grande diferença entre os filmes e a vida,

diria até que os filmes me ajudam a viver.”
Jean-Luc Godard


Jean-Luc Godard (1930-2022) foi o cineasta cuja obra e pensamento mais influência tiveram (e continuam a ter) no cinema e noutros domínios artísticos contemporâneos. Abriu caminhos para o futuro do cinema, re-fez a visão da sua história, quebrou barreiras, revolucionou. Foi um artista total, livre, prolífico e agitador, lúdico e profundo. Genial.


A partir de 22 de Fevereiro (re)visitamos 11 dos mais belos filmes de Godard, agora em novas cópias digitais restauradas.


Filmes nos quais, parafraseando Cesariny, Godard propôs à circulação alguns mitos maiores, alguns mitos menores, integrando-os no quotidiano, como se escreveu nos Cahiers du Cinéma no número que lhe foi dedicado aquando da sua morte (“nascemos, crescemos e morremos entre os mitos que fundam a civilização à qual pertencemos”, ou, parafraseando agora Pierrot, aliás Ferdinand: somos feitos de mitos e os mitos são feitos de nós). Trouxe Jean Seberg e o fantasma de Bogart para as ruas de Paris em O Acossado (1960), filme rimbaudiano e referência maior da Nouvelle Vague; levou-nos ao encontro de Brigitte Bardot e Fritz Lang, Homero e Hollywood em O Desprezo (1963); visitou o film noir, o affaire Ben Barka e Walt Disney  em Made in USA (1966); construiu uma alegoria sobre a guerra em Os Carabineiros (1963), escrito com Rossellini, onde as personagens se chamam Ulisses, Miguel Ângelo, Vénus e Cleópatra; Orfeu/Lemmy Caution/Constantine salva Eurídice/Natacha/Karina do reino das trevas na distopia de Alphaville (1965)…


Nos anos oitenta tem um regresso em grande com Nome: Carmen (1983, Leão de Ouro em Veneza – longínquo remake de Pierrot…? – com grandes momentos proporcionados por Godard lui-même, autoractor no papel do Oncle Jean, personagem burlesco, espécie de Diógenes do nosso tempo, como escreveu Daney). Pouco depois chega Detective, “filme-charada, filme-enigma”, como lhe chamou Jorge Silva Melo, “filme dos lugares de espera, dos lugares de passagem, […] entre aviões, corredores, varandas, bancos de café, camas”, com um extraordinário Johnny Halliday.

Em Valha-me Deus (1993), reescreve nos dias de hoje o mito de Anfitrião e Alcmena, teatralizado por Plauto, Molière ou Kleist.

Estes 11 filmes são de certo modo uma súmula do “programa Godard”: os “éxitos” dos anos 60, a re-visita de géneros e estilos, que “transfigura” ou “dinamita” à sua maneira, o uso da citação, a “colagem”. O filme de espiões em O Soldado das Sombras, história de um desertor que luta na clandestinidade durante a Guerra da Argélia (1960, três anos proibido em França e que só se estrearia em 1963); a ficção científica em Alphaville (Urso de Ouro em Berlim), a comédia musical em Uma Mulher é uma Mulher (1961); o cinema de “guerra” e de “propaganda” em Os Carabineiros, a tragédia em O Desprezo, talvez o mais clássico dos seus filmes …


Godard, nosso contemporâneo. A sua obra continua fulgurantemente viva e vamos de novo vê-la!


11 vezes GODARD. “C’est beau ça, hein!”