Ciclo ‘Joseph Losey, cineasta essencial’ na reabertura do Teatro Campo Alegre

O grande cinema está de volta ao Porto, na reabertura do Teatro Campo Alegre, com as obras-primas de um cineasta essencial, um dos nomes maiores da história do cinema: JOSEPH LOSEY.


Bem vindos/as ao grande cinema!

Joseph Losey, cineasta essencial


Joseph Losey é um dos nomes essenciais da história do cinema. Começou a frequentar as salas muito jovem, a partir dos dez anos, admirava Griffith, Stroheim ou Chaplin, mas foi o teatro que escolheu para começar a trabalhar, e nele se impôs nos seus primeiros anos de carreira. Um dos grandes encenadores americanos dos anos 30 e 40, figura de proa do Federal Theater Project nos anos do New Deal, trabalhou com Bertolt Brecht e encenou com ele a peça Galileo, com Charles Laughton como protagonista.

Antes de apresentar a sua primeira longa, O Rapaz dos Cabelos Verdes (em 1948, tal como o seu conterrâneo e amigo Nicholas Ray, que debutava nesse ano com They Live By Night), realizou algumas curtas para a MGM.


A perseguição de que foi alvo na América macarthista (por causa da sua ligação a grupos de teatro de esquerda e ao Partido Comunista), levou-o a deixar os Estados Unidos em 1951, para não ser preso (acabava de realizar 3 filmes nesse ano), e em 1952 exilava-se em Inglaterra, refazendo, depois de alguns anos de muitas dificuldades, a sua carreira em Londres, onde viria a realizar várias das suas obras maiores, que vieram revolucionar o cinema britânico e se tornaram marcos fundamentais da sua história. Perdera-se um grande realizador americano, ganhava-se um grande realizador europeu.

A recepção crítica dos seus filmes ombreava com a dos nomes maiores da altura, entre eles Bergman, Pasolini, Visconti, Truffaut, Godard, Antonioni, Bertolucci ou os ingleses Tony Richardson e Lindsay Anderson. E foi talvez o único cineasta a pôr de acordo, recebendo delas os maiores elogios críticos durante muitos anos, as duas revistas de cinema francesas, os Cahiers du Cinéma e a Positif, que rivalizavam entre si e normalmente diziam mal daquilo que a outra achava bem.


Harold Pinter foi um dos seus colaboradores mais próximos, e um amigo. Trabalhou com os grandes actores do seu tempo, entre eles Dirk Bogarde, Michael Redgrave, Stanley Baker, James Fox, Sarah Miles, Jeanne Moreau, Delphine Seyrig, Monica Vitti, Alain Delon, Michael Caine, Julie Christie, Elisabeth Taylor, Richard Burton, Mia Farrow, Robert Micthum, Michel Londsdale, Edward Fox e Isabelle Huppert.


Os seus filmes mais fascinantes são aqueles que resultam da necessidade urgente de dar forma à sua visão no grande ecrã; o seu exílio na Inglaterra moldou essa visão, levando-o a identificar-se ainda mais com os outsiders que retratara ao longo da sua filmografia de sucesso.


A Leopardo Filmes e a Medeia Filmes recuperam agora, em cópias digitais restauradas, as suas obras maiores do seu período de maior celebridade, a década de 60 e a primeira metade da década de 70. Vamos ver seis filmes que vieram revolucionar o cinema inglês e o cinema europeu nesses anos.


Prisão Maior (1960) é um dos seus filmes mais complexos e brilhantes, no qual traça um retrato ousado do sistema prisional britânico e de um personagem singular e a sua capacidade de sobrevivência numa sociedade onde nunca encontrará o seu lugar. É um filme que vai marcar a obra que se lhe seguirá.


Em 1962, estreia Eva, outra das suas obras-primas e talvez o seu filme mais pessoal, na Selecção Oficial do Festival de Veneza. Contra a sua vontade, os produtores obrigaram-no a uma versão reduzida. Mas, graças a descobertas recentes, foi agora restaurado na versão longa, que iremos finalmente poder ver. O Criado (1963), primeira colaboração com Harold Pinter, vencedor de três prémios BAFTA, tornou-se um clássico dos dramas psicológicos. Aqui o declínio da aristocracia britânica é representado através da relação entre criado e patrão. A crítica britânica recebeu o filme entusiasticamente. Em 1967, Acidente, leva o realizador ao Festival de Cannes, onde venceu o Grande Prémio do Júri. Poucos anos depois ganharia a Palma de Ouro com The Go-Between – O Mensageiro (1971), a sua última colaboração com Pinter, que aqui adapta o romance homónimo de L.P. Hartley.

Em 1976, Mr. Klein / Um Homem na Sombra, com Alain Delon, um filme que “abanou” a França, integrou a Selecção Oficial do Festival de Cannes e venceu três prémios César, entre eles o de Melhor Filme e o de Melhor Realizador.


Losey trabalhou ainda com Yves Montand e Miou-Miou, visitou Mozart e a ópera em Don Giovanni (1979), fez La Truite (1982) com Isabelle Huppert. O seu último filme seria Steaming (1985), com Vanessa Redgrave e Sarah Miles.


Morreu em Londres em 1985, desaparecendo assim um “sobrevivente”. Losey pode ter sido um ser contraditório, mas foi sempre fiel aos seus princípios, e para ele, fazer um filme foi quase sempre travar uma batalha. “Se queremos realizar um filme como o desejamos, é preciso lutar. Lutar por um cinema livre”, disse. E esse foi o motor da sua existência, uma busca permanente e incansável pela sua liberdade pessoal e artística. 


Prisão Maior The Criminal

de Joseph Losey

com Stanley Baker, Sam Wanamaker, Grégoire Aslan, Margit Saad

Reino Unido, 1960 – 1h37 | M/12

CÓPIA DIGITAL RESTAURADA


Johnny Bannion (Stanley Baker) é o preso mais respeitado numa prisão de alta segurança. Planeia um golpe para quando sair, um grande assalto a uma pista de corridas. Mas os tempos mudaram, e o estatuto de Johnny no submundo do crime já não é suficiente para impedir o seu regresso à prisão. Retrato de um personagem e da sua capacidade de sobrevivência numa sociedade onde nunca encontrará o seu lugar, Prisão Maior é um dos filmes mais complexos e mais brilhantes de Losey, e, de certo modo, marcará a sua obra a partir daqui. O comentário social arguto e um estilo visual singular (dos planos sequência ao domínio da elipse) fazem deste filme “uma das obras-primas de Losey” (Joaquín Vallet).


Eva Eve

de Joseph Losey

com Jeanne Moreau, Stanley Baker, Virna Lisi, Peggy Guggenheim

França, Itália, 1962 – 2h08 | M/12


Thriller erótico inspirado no romance homónimo de James Hadley Chase, Eva é uma das obras maiores de Losey. Na altura, os produtores do filme, os irmãos Hakim, obrigaram o realizador a reduzir a sua duração, primeiro para a estreia no festival de Veneza, depois, ainda mais, para as estreias em sala. Losey quis restaurá-lo com a duração inicial, mas os Hakim disseram-lhe que o material eliminado se perdera. Foi encontrado há poucos anos e objecto do magnífico restauro que agora finalmente iremos ver. É o filme mais ferozmente pessoal do realizador, no qual tenta “expulsar os seus demónios”. De novo com Stanley Baker, e uma Jeanne Moreau sublime no papel da tentadora Eva, o filme exerce um poder de fascinação raro sobre o espectador.

Festival de Veneza 1962 - Selecção Oficial em Competição


O Criado The Servant

de Joseph Losey

com Dirk Bogarde, Sarah Miles, James Fox, Wendy Craig

Reino Unido, 1963 – 1h56 | M/12

CÓPIA DIGITAL RESTAURADA


Hugo (Dirk Bogarde) é um criado que vai manipulando gradualmente o seu patrão (James Fox), levando-o a resignar-se a uma posição de subserviência, num exercício alucinado de subversão das relações de poder tradicionais. Drama psicológico ambivalente, envolto num ambiente claustrofóbico, o filme afronta o sistema de classes e a fragilidade da aristocracia inglesa. Com argumento de Harold Pinter (na primeira de três colaborações cinematográficas entre o célebre dramaturgo e Losey), O Criado conquistou um grande sucesso crítico e comercial, convertendo-se de imediato num clássico contemporâneo e consagrando Bogarde como um dos maiores actores britânicos da sua geração.

Festival de Veneza 1963 - Selecção Oficial em Competição

Prémios BAFTA 1964 – Melhor Actor (Dirk Bogarde); Melhor Fotografia; Maior Promessa (James Fox)


Acidente Accident

de Joseph Losey

com Dirk Bogarde, Stanley Baker, Jacqueline Sassard, Michael York

Reino Unido, 1967 – 1h45 | M/12

CÓPIA DIGITAL RESTAURADA


Stephen (Dirk Bogarde) é um professor de meia-idade na Universidade de Oxford, insatisfeito com o seu casamento e com a sua carreira. Movido pela inveja, entra em guerra com Charley (Stanley Baker), o seu amigo galanteador e rival académico, e com William (Michael York), o jovem noivo Anna (Jacqueline Sassard), uma estudante enigmática por quem se apaixona. Misterioso, subversivo e absolutamente fascinante, Acidente, um dos melhores filmes de Losey, é dominado por uma tensão que fervilha nos espaços que as palavras silenciam, muito ao estilo de Harold Pinter, que tem aqui um dos seus melhores guiões, que o realizador qualificou como obra-prima.

Festival de Cannes 1967 – Grande Prémio do Júri

Prémios BAFTA 1968 - Melhor Filme, Melhor Actor (Dirk Bogarde), Melhor Argumento (Harold Pinter)


Mr. Klein - Um Homem na Sombra

de Joseph Losey

com Alain Delon, Jeanne Moreau, Francine Bergé, Michel Londsdale

França, 1976 – 2h03 | M/12

CÓPIA DIGITAL RESTAURADA


Primeiro filme francês de Joseph Losey e uma das suas obras maiores, Mr. Klein é, segundo o realizador, “uma fábula em forma de aviso”. Klein (Alain Delon, num dos seus melhores papéis) é um negociante de arte oportunista, que se aproveita da Ocupação comprando ao desbarato peças preciosas aos judeus em fuga, até ao momento em que a sua própria identidade é posta em causa, quando é confrontado com a existência de um “outro” Robert Klein, um judeu procurado pela polícia. Neste filme, que é também uma análise do estado policial e uma viagem pelos labirintos da culpa individual e colectiva, que pôs o dedo na ferida sobre o que se passou em França durante a Ocupação, Mr. Klein é um “Sr. Quase-Toda-a-Gente”, que não quer ver, que não quer compreender, aquele que tornou possíveis e as grandes atrocidades do século XX.

Festival de Cannes 1976 – Selecção Oficial em Competição

Prémios César 1977 – Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Direcção de Arte


A partir de 13 de Maio


The Go-Between – O Mensageiro

de Joseph Losey 

com Julie Christie, Alan Bates, Dominic Guard, Edward Fox, Margaret Leighton, Michael Redgrave

Reino Unido, 1971 – 1h56 | M/12

CÓPIA DIGITAL RESTAURADA


Um projecto acalentado vários anos por Losey, e também por Pinter, que começou a trabalhar na escrita do guião em meados dos 60, ambos impressionados pela leitura do romance de L.P. Hartley que o filme adapta, The Go-Between. O cineasta trabalha o tempo de forma sublime, pontuado de elipses e alusões, onde germinam as tensões que abanam as personagens. Exploração do despertar para a vida adulta do adolescente Leo Colston, que, de férias na luxuosa casa de campo de Norfolk do seu companheiro de colégio Marcus Maudsley, se aproxima de Marian (Julie Christie), a irmã mais velha deste, e acaba a entregar as suas mensagens a um vizinho camponês, com o qual ela mantinha uma relação amorosa clandestina, criando-se assim uma cumplicidade entre o rapaz com raízes humildes e a jovem que, apesar de ter nascido na opulência, sente um enorme desejo de romper com o estabelecido e despreza as convenções sociais. É um dos filmes mais célebres de Losey, que nesse ano “roubaria” a Palma de Ouro a Morte em Veneza, de Visconti, no festival de Cannes.

Festival de Cannes 1971 – Palma de Ouro

Prémios BAFTA 1972 - Melhor Actriz Secundária (Margaret Leighton), Melhor Actor Secundário (Edward Fox), Melhor Argumento (Harold Pinter), Melhor Actor Promessa (Dominic Guard)