“VOZES HUMANAS” no cinema Nimas

Cinema Medeia Nimas — Quarta, 30 de Dezembro, 21h


Una voce umana, de Roberto Rossellini, com Anna Magnani (1948)

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O que arde cura, de João Rui Guerra da Mata, com João Pedro Rodrigues (2012)

Conversa com João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues

A Voz Humana, a peça que Jean Cocteau escreveu em finais dos anos 1920, um monólogo de um acto que foi pela primeira vez encenado em 1930 na Comédie Française, tem, desde aí, conhecido múltiplas encenações e adaptações (no teatro e na ópera, radiofónicas, para a televisão e para o cinema).


Por cá, enquanto aguardamos pela estreia da curta-metragem homónima de Pedro Almodóvar (Cocteau é uma das matrizes de seu cinema) com Tilda Swinton, que estreou fora de competição no festival de Veneza e esgotou as duas projecções no LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, pudemos ver A Voz Humana no início do mês na Gulbenkian numa versão para a ópera (Poulenc: La Voix humaine). São também inúmeras as interpretações em português, de entre as mais célebres, certamente a de Maria Barroso no Teatro São Luiz, interrompida brutalmente pela Pide, ou, nos anos 80, a de Isabel de Castro, no Teatro da Graça, utilizando uma tradução inédita na altura, de Carlos de Oliveira.


No cinema, Roberto Rossellini foi o primeiro a pegar no texto de Cocteau para o filmar com Anna Magnani, em Una voce umana, primeira parte do díptico L’amore (1948). É esse monólogo lacerante de Cocteau/Rossellini/Magnani que iremos ver no próximo dia 30 de Dezembro no cinema Nimas, seguido do filme O que arde cura, de João Rui Guerra da Mata, com João Pedro Rodrigues, inspirado na peça de Cocteau. Como este escreveu: “importava partir do mais simples: um acto, um quarto, uma personagem, o amor e o adereço banal das peças modernas, o telefone”. É isso que vemos nestes dois filmes: o primeiro, que adapta fielmente o texto de Cocteau, o segundo, que o recria noutro tempo e noutro contexto, mudando o género do protagonista. Em ambos, um corpo confinado dentro de um quarto (algo mais actual que nunca) que deseja e ama um corpo ausente, que nós espectadores tentamos construir a partir do seu olhar, e que através deste olhar se vai desvelando, o seu passado comum de amantes, as suas dúvidas e indecisões, perpetuadas nos silêncios, nos diálogos entrecortados que percorrem a linha do telefone. Histórias de abandono, em que o que liga, separa. Mas, como escreveu José Bragança de Miranda num texto intitulado “O elogio do telefone” a propósito de uma encenação da peça de Cocteau por Carlos Pimenta, com Emília Silvestre (TNSJ, 2011), “no desligar, no acabar do jogo, estão novos começos”.


De todas estas “rimas” falaremos com João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues, na sessão especial de 30 de Dezembro no cinema Medeia Nimas.


Una Voce Umana, de Roberto Rossellini

com Anna Magnani

Itália, 1948, 35 min, m/12


Una voce umana é a primeira das duas partes que compõem L’Amore, de Roberto Rossellini, e adapta fielmente, palavra por palavra, a peça de Jean Cocteau La Voix humaine (1930). Anna Magnani interpreta uma mulher que ama sem ser correspondida, uma mulher entre os 35 e os 40 anos, isolada do mundo exterior, num quarto com as cortinas cerradas, uma enorme cama, e um cão que o amante lhe oferecera. E um telefone. Na véspera do dia em que vai casar-se, esse antigo amante telefona-lhe por três vezes. O filme de Rossellini é o registo minucioso do que lhe diz a personagem de Ana Magnani ao telefone. Como notou Rudolph Thome, Rossellini continua aqui as experiências de Paisá, rodando em longos planos aproximados, como se a câmara fosse um microscópio, e “passamos a ver, não só o que faz uma pessoa, mas também o invisível: o que essa pessoa pensa e sente”.


O que arde cura, de João Rui Guerra da Mata

com João Pedro Rodrigues

Portugal, 2012, 26 min, m / 12


Na madrugada de 25 de agosto de 1988, Portugal acorda com o maior incêndio desde o Grande Terramoto de 1755. Em Lisboa, o Chiado arde. Do outro lado da cidade, longe do fumo e do fogo, Francisco (João Pedro Rodrigues) recebe um telefonema inesperado e chamas do passado explodem no seu quarto, sufocando a sua vida.

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