Sessões Especiais

Voltar
 
01-05-2019 até 31-05-2019, no Cinema Monumental

Fins-de-Semana no Cinema Monumental: Maio

Programa:

Sábado, 25 de Maio

14h, O QUE ME FICOU DA REVOLUÇÃO, de Judith Davis M/12
(Estreia) Com Judith Davis, Malik Zidi e Claire Dumas

16h, HÁLITO AZUL, de Rodrigo Areias M/12
(Antestreia) Presença do realizador

18h, HOMENAGEM A MANUEL GRAÇA DIAS 
ARRIVEDERCI MACAU de Rosa Coutinho Cabral e Manuela Graça Dias
Conversa com Luís Urbano (Arquitecto), Rosa Coutinho Cabral, Egas José Vieira e outros 
Curtas A ENCOMENDA + A LIMPEZA + 1 episódio VER ARTES ARQUITECTURA

21h30, A ANGÚSTIA DO GUARDA-REDES NO MOMENTO DO PENALTY, de Wim Wenders (Cópia digital restaurada) M/12
(Antestreia) Com Arthur Brauss, Kai Fischer, Erika Pluhar

Sábado, 26 de Maio

14h, CHUVA DE PEDRAS, de Ken Loach (cópia 35mm) M/12
(Realizadores Incontornáveis de Cannes) Com Bruce Jones, Julie Brown e Gemma Phoenix

16h, COSMOS, de Andrzej Żulawski M/14
(Ciclo: À Volta da Loucura) Com Victoria Guerra, Jonathan Genet, Sabine Azéma, Jean-François Balmer

18h30, VIAGEM A PORTUGAL, de Sérgio Tréfaut M/12
(Rever Sérgio Tréfaut) Com Maria de Medeiros, Isabel Ruth, Makena Diop
Presença do realizador e Maria de Medeiros  

21h, A VIDA É UM JOGO/THE HUSTLER, de Robert Rossen M/14 
(Cineclube - Tributo a Paul Newman - Realizador e actor) Com Paul Newman, Jackie Gleason, Piper Laurie

 

Bilhetes: 6€

........................................................................................................................................................................

Homenagem a Manuel Graça Dias
 
Manuel Graça Dias (1953-2019) gostava de cidades. Do espaço de partilha que representam. Da sua diversidade e polivalência. Das cidades como espaço de liberdade, que construímos em conjunto, fazendo delas “um somatório imenso sobreposto de tantas diferentes cronologias e origens” [Manual das Cidades, ed Relógio d’Água]. Arquitecto, professor, cidadão interveniente, “pensava” em público a arquitectura e a cidade, quer através das colaborações regulares na imprensa escrita e revistas da especialidade, rádio e televisão, ou nos muitos livros que publicou, e, como escrevia o jornal Público, deixou-nos um “legado vibrante”.
Poderíamos dizer que Manuel Graça Dias era “muito cá de casa”. Com Egas José Vieira, com quem fundou o atelier de arquitectura Contemporânea, teve, desde os anos noventa, uma relação de trabalho constante com a Medeia Filmes e Paulo Branco. São deles os projectos dos Cinemas Medeia Monumental, em Lisboa (1993) e Cidade do Porto (1994) — bem como, mais tarde, os do Saldanha Residence, Alvaláxia e Freeport, entre outros, ou os escritórios da produtora Madragoa Filmes, em Alcochete, ou ainda a livraria da Assírio & Alvim nos cinemas Medeia King. Um espírito criativo e livre, Graça Dias aceitava sempre com prazer novos desafios, e a forma como resolvia as situações e as explicava, o seu entusiasmo e envolvimento eram contagiantes. Participava regularmente em debates, conversas, ou apresentava filmes nas nossas salas, em Lisboa e no Porto.
 
No dia 25 de Maio prestamos-lhe uma homenagem nos “Fins-de-semana no Monumental”. Exibiremos o documentário “Arriverdeci Macau” (2012), que fez com Rosa Coutinho Cabral, sobre o arquitecto Manuel Vicente, com o qual trabalhou em Macau, no início da sua carreira; as curtas-metragens, que escreveu e realizou no âmbito do projecto “Ruptura Silenciosa”, da FAUP: “A Encomenda” e “A Limpeza” (ambas de 2013; a primeira, sobre a Casa de Albarraque, projecto do arquitecto Raul Hestnes Ferreira, que também participa no filme, a segunda, sobre a casa Weinstein, que Manuel Vicente construiu para a família), o último episódio do programa que teve na RTP nos anos 80, “Ver Artes Arquitectura”, e um excerto de uma entrevista filmada, ainda inédita, do projecto da FAUP, Circa 63, sobre as intersecções entre a arquitectura e o cinema em Portugal. Haverá ainda uma conversa sobre a sua obra com os arquitectos Egas José Vieira, Luís Urbano e a realizadora Rosa Coutinho Cabral e outros convidados a anunciar.
 
Antestreias com a presença dos realizadores: ANTÓNIO UM, DOIS, TRÊS, de Leonardo Mouramateus, e HÁLITO AZUL, de Rodrigo Areias.
 
Vamos ver em antestreia os filmes portugueses ANTÓNIO UM DOIS TRÊS, de Leonardo Mouramateus (4 de Maio, 19h15), e HÁLITO AZUL, de Rodrigo Areias (25 de Maio, 16h), ambos apresentados e seguidos de conversa com os realizadores.
ANTÓNIO UM DOIS TRÊS (festival de Roterdão, Selecção Oficial, Prémio Melhor Filme e Prémio da Crítica no festival Caminhos do Cinema Português) é a primeira longa-metragem do jovem realizador brasileiro, radicado em Portugal, Leonardo Mouramateus. Depois de várias curtas premiadas, Mouramateus inspira-se em “As Noites Brancas”, de Dostoievski, para construir esta história de um jovem indeciso (Mauro Soares, prémio revelação no “Caminhos…”), que, pela sua espontaneidade, remete para os filmes da nouvelle vague.
HÁLITO AZUL, de Rodrigo Areias (Locarno IFF First Look selection 2018, Porto Post Doc 2018) acaba de receber o Prémio Especial do Júri no ISMAILIA IFF, no Egipto). Neste tempo em que a pesca artesanal está ameaçada, “Hálito Azul”, inspirado em Raúl Brandão, mistura documentário e ficção, e leva-nos à Ribeira Quente, nos Açores, onde a pesca é uma das actividades principais da comunidade.
 
Chamamos ainda a atenção para a antestreia, a 4 de Maio, de AGRADAR, AMAR E CORRER DEPRESSA, de Christophe Honoré (Cannes 2018, Selecção Oficial em Competição), que a crítica elogiou, considerando-o o mais belo filme de Honoré desde CANÇÕES DE AMOR (que também revisitamos, em cópia 35mm, tal como EM PARIS), herdeiro das tradições dos pólos Godard-Fassbinder e Truffaut-Demy;
e para a primeira apresentação, no dia 25 de Maio, da nova cópia restaurada do mítico A ANGÚSTIA DO GUARDA-REDES NO MOMENTO DO PENALTY, de Wim Wenders, a primeira das muitas colaborações de Wenders com o escritor (e realizador) Peter Handke, adaptação do livro homónimo deste. Um filme que deve muito a Hitchcock (Wenders diz que já Handke se inspirara nele para a escrita do livro).
 
Ainda no primeiro fim-de-semana de Maio (sábado, 17h), a actriz LEONOR SILVEIRA explica-nos porque escolheu JULES E JIM, de François Truffaut, para partilhar com os espectadores. O filme, que será projectado numa cópia 35mm, é um dos títulos fundamentais da Nouvelle Vague e da obra de Truffaut. Adaptado de um romance de Henri-Pierre Roché, conta a relação triangular entre dois homens e uma mulher, “convocando o turbilhão da vida”, como escreveu João Bénard da Costa.
 
No segundo fim-de-semana, destacamos, a 11 de Maio, o programa HACKERS: HERÓIS OU VILÕES?, e vamos reflectir sobre um assunto que tem de novo ocupado as páginas dos jornais, sobretudo depois da prisão recente de Julian Assange, que há anos estava “exilado” na embaixada da Equador em Londres, onde pedira asilo político. São os lançadores de alerta (“whistleblowers”) “heróis” que denunciam as arbitrariedades dos Estados perante os cidadãos, desmascarando as mentiras e omissões dos governos, através da divulgação de documentos oficiais e imagens que se mantinham secretos e que revelam o atropelo e violações de direitos e mesmo crimes de guerra, ou “vilões”, como sugerem esses Estados, que os perseguem a todo o custo, ainda que para isso tenham que “inventar” pretextos legais para o fazerem? Veremos dois filmes de Laura Poitras sobre as duas figuras de proa de entre os whistleblowers: Edward Snowden, no filme CITIZEN FOUR (2014) e Julian Assange, no filme RISK (2016). Entre as duas projecções conversaremos com a eurodeputada ANA GOMES, que tem tido uma voz activa nestas questões, apelando à protecção jurídica dos whistleblowers (e ainda há poucos dias visitou, na prisão, o hacker português Rui Pinto, a quem entregou o prémio 'whistleblower' que lhe foi atribuído pela Esquerda Unitária Europeia (GUE/NGL) no Parlamento Europeu).
 
No mês de Maio há lugar para duas estreias no Monumental:
O RIO, do realizador cazaque Emir Baigazin (que já estreara em Portugal “Harmony Lessons”), Prémio Melhor Filme na última edição do LEFFEST — Lisbon & Sintra Film Festival, num júri presidido pelo cineasta Walter Salles. Na entrega do prémio, a pianista Martha Argerich, membro do júri do festival, afirmou que “O Rio” é um filme admirável, com uma expressividade singular, e uma força poética, hipnótica e humana que prendeu o júri desde o primeiro plano. “O Rio” foi também premiado no festival de Toronto e Baigazin recebeu o prémio para o Melhor Realizador no festival de Veneza, secção Orizzonti;
O QUE ME FICOU DA REVOLUÇÃO, da actriz e realizadora francesa Judith Davis, uma bem-sucedida comédia utópica (a crítica francesa não lhe poupa elogios), que interroga, de forma combativa, com inteligência, subtileza e humor, a forma como vivemos.
 
Para além dos filmes de Christophe Honoré, vamos também rever os filmes de SÉRGIO TRÉFAUT: já no domingo, 5 de Maio, o grande vencedor dos prémios Sophia, A RAIVA (2018), a partir do romance “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca; a 19, o documentário LISBOETAS (2004), um fenómeno de popularidade na sua estreia em sala, sobre a vaga de imigração que mudou Portugal no virar do século e trouxe “novos lisboetas” à cidade de Lisboa; e, a 26, numa sessão, em que o realizador e actores conversarão com o público, VIAGEM A PORTUGAL (2011), a sua primeira longa de ficção, com interpretações sublimes de Maria de Medeiros e Isabel Ruth.
 
Em mês do festival de Cannes, vamos rever alguns dos melhores filmes de alguns dos realizadores “incontornáveis do festival”, que estarão, de novo, este ano na Selecção Oficial em Competição: Pedro Almodóvar, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Arnaud Desplechin, Terrence Malick, Elia Suleiman e Ken Loach.
 
Prosseguimos o “Ciclo à Volta da Loucura”, iniciado em Abril, com a exibição, entre outros, do filme raríssimo de Marco Bellochio e ainda Sandro Petraglia, Stefano Rulli e Silvano Agostini: MATTI DA SLEGARE (1975), um filme colectivo sobre um projecto pioneiro e corajoso, levado a cabo em Parma, para a recuperação dos desadaptados e alienados internados nos hospitais psiquiátricos, um projecto que se afastava dos métodos tradicionais e que tentava recuperar esses doentes, através da sua inserção nas comunidades.
Exibiremos também uma nova cópia restaurada do filme de Raúl Ruiz, GENEALOGIAS DE UM CRIME (1997), Urso de Ouro no festival de Berlim, com Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Melvil Poupaud, Mathieu Amalric, e o escritor Patrick Modiano, uma espécie de anti-“Enfant sauvage”, como lhe chamou na estreia Frédéric Bonnaud, um filme sobre o eterno combate entre o determinismo e o livre-arbítrio, a partir da história real de uma pedo-psicanalista vienense e do seu sobrinho. A seguir à projecção haverá um debate com os psicanalistas Conceição Almeida e João Mendes Ferreira, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
 
As sessões “Cineclube” de Maio, aos domingos à noite, prestam tributo a PAUL NEWMAN, actor e realizador, figura cimeira do cinema de Hollywood no século XX. Podemos dizer que o seu trabalho como actor é sobejamente conhecido, mas os filmes raramente são exibidos em sala e esta é uma oportunidade única para os vermos; no entanto, a sua breve filmografia como realizador, ainda mais difícil de se ver, faz dele um dos grandes autores do cinema americano. Vamos ver um dos filmes que realizou, RACHEL, RACHEL (1968), com Joanne Woodward, a sua mulher; e duas obras-primas como actor: VÍCIO DE MATAR / THE LEFT HANDED GUN (1958), de Arthur Penn (sobre o qual Ruy Belo escreveu o belíssimo poema, donde retiramos estes versos: “Para onde há-de ir billy the kid? / Billy não sabe para onde há-de ir / […] Mata inimigos e mata amigos / Viver é para ele matar / Procura um refúgio mas nunca sabe / onde se há-de refugiar”), e A VIDA É UM JOGO / THE HUSTLER (1961), de Robert Rossen, que encerra a programação de Maio.
Ainda uma chamada de atenção, no primeiro domingo, para a obra-prima e um dos mais célebres filmes de John Cassavetes, UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA / A WOMAN UNDER THE INFLUENCE (1974), com uma soberba Gena Rowlands (vencedora do Globo de Ouro para Melhor Actriz, também nomeada para os Óscares, tal como Cassavetes o foi para Melhor Realizador) e Peter Falk.
 
Last but not least, as ÚLTIMAS OPORTUNIDADES para ver em sala o arrebatador A PEREIRA BRAVA, do turco Nuri Bilge Ceylan, já este sábado a abrir o programa de Maio, e o esplendoroso A PORTUGUESA, de Rita Azevedo Gomes, com uma espécie de sessão “finissage”, no dia 12 de Maio, às 18h, com a presença da realizadora e dos actores.
 
E voltamos a Manuel Graça Dias, à sua noção de espectador, como a refere no seu livro “Manual das Cidades”:
“Um espectador, praticamente, nunca está só; está acompanhado (vê ‘ao mesmo tempo’) e pode comentar, corrigir, ser corrigido, formular opinião, receber ecos, respostas, aumentar a dimensão das dúvidas, crescer em capacidade crítica ou maravilhar-se com os outros.”
São os espaços como o cinema Monumental, que Graça Dias projectou e nos ajudou, com outros, muitos outros, a “construir”, que marcam a “cidade que nos marca”, como nós “marcamos as cidades e devíamos gostar mais delas para que elas gostassem (ainda) mais de nós.”
 
Bons fins-de-semana (no Monumental)!