Ciclo Ernst Lubitsch

19.06 14.07

Cinema Medeia Nimas - Lisboa

“Lubitsch inventou a Hollywood moderna.”

Jean Renoir
 
“Ah, o charme malicioso de Lubitsch, eis o que fazia dele verdadeiramente um príncipe.”
François Truffaut
 
Ernst Lubitsch (n. Berlim, 1892; m. Los Angeles, 1947), veio do teatro berlinense, onde foi actor com a oposição do pai, para pouco depois chegar ao cinema. Atravessou o mudo e o sonoro, e mudou a linguagem cinematográfica. Como disse Renoir, era de tal modo forte, “que quando Hollywood lhe pediu para lá trabalhar, não só não perdeu o seu estilo berlinense, como converteu a indústria de Hollywood à sua própria forma de expressão”. Hitchcock chamou-lhe “um homem de puro cinema”, e os admiradores e devedores da sua arte multiplicaram-se, de Cukor e Preminger, que com ele trabalharam, a Orson Welles, Ozu ou Douglas Sirk. Foi um mestre da mise-en-scène, da sugestão, do intangível. Com uma inventividade constante. Os seus filmes tinham diálogos portentosos, desafiando a censura, o código Hays de má fama, que chegou com os anos 30. E, como referiu Truffaut, sempre com o público [“o público não está para lá da criação, está com ela, faz parte do filme”].
 
Neste ciclo de 15 filmes, 3 deles são do período alemão, cada vez mais valorizado no conjunto da sua obra: Carmen (1918), o primeiro a trazer-lhe fama internacional; A Princesa das Ostras (1919), que nos dá já a ver o seu estilo cinematográfico, o seu famoso e insuperável touch [Lubitsch: “A câmara deve comentar, insinuar, criar um epigrama… Estamos a contar histórias através de imagens, por isso temos de tentar tornar essas imagens o mais expressivas possível”];  e Madame DuBarry (1919), que foi o seu primeiro filme a estrear-se, com grande sucesso, na América. Partirá para os EUA no início dos anos 20, a convite de Hollywood para fazer um filme com Mary Pickford, e aí começa uma nova fase da sua carreira, trabalhando com os grandes estúdios, que, como hoje com os jogadores de futebol, pagavam uns aos outros pela sua cedência, e foi também produtor, afirmando-se como o cineasta mais célebre no mundo até à sua morte prematura [“morrerá vinte anos antes do tempo”, escreveu Truffaut], aos 55 anos.
 
Os outros 12 Lubitsch films que veremos ["I do not make German or American films, but rather Lubitsch films"], vão de 32 a 47, quando dá início a uma estonteante série de obras-primas, os seus anos dourados nos anos dourados de Hollywood.
 
É conhecida a história de que, quando Billy Wilder, que com ele colaborou e tinha na sua secretária uma placa onde se lia “How would Lubitsch do it?”  informou William Wyler sobre a sua morte com uma frase incisiva: “Perdemos o Lubitsch”, Wyler retorquiu sagazmente: “Pior do que isso, perdemos os filmes do Lubitsch”.
 
Perdemos os que ainda iria fazer, mas continuamos com o tesouro dos que fez. Que agora reabrimos para os redescobrir, com grande prazer, no grande écran da sala de cinema, bigger than life. Como diria Jean Douchet, Lubitsch acreditava no prazer, porque a vida é como que um quebra-cabeças epicuriano, onde cada momento é roubado à morte. Por isso, é preciso viver, sorrir e aceitar o que vier. Um prazer imediato, físico, mas também um prazer social. E não há prazer senão na instabilidade permanente.