Ciclo "Philippe Garrel – Inclassificáveis"

21.02 18.03

Cinema Medeia Nimas - Lisboa

Em 1967, Philippe Garrel, então com 19 anos, encontra Jean Eustache num café, como nos conta Philippe Azoury no livro Jean Eustache – Un amour si grand. Era um encontro de artistas para um documentário, Le jeune Godard et ses émules. Garrel retomará esta sequência no seu filme de 1988, Les Ministères de l’art, que dedica à memória de Eustache, uma sequência de rara beleza, na qual este é filmado de muito perto, o seu rosto com os olhos azuis enrugados e um sorriso encantador a ocupar a quase totalidade do plano.


Depois do acontecimento que foi, em 2022, a recuperação da obra-prima absoluta de Eustache, A Mãe e a Puta, “o mais belo filme francês da década de 1970”, como escreveu Serge Daney, e um dos mais venerados e mais citados do cinema francês, e mesmo da história do cinema, estreiam-se agora em sala todos os filmes de Eustache, inéditos comercialmente em Portugal, uma obra de génio, breve e intensa, realizada ao longo de 18 anos por um cineasta lendário, amada pelos seus pares, de Garrel a Wenders e Werner Schroeter, Olivier Assayas, Jim Jarmusch, Jane Campion, Chantal Ackerman, Claire Dennis, Hong Sangsoo, Pedro Costa, Harmony Korine ou Gaspard Noé. Que trabalhou com Jean-Pierre Léaud, Ingrid Caven, MIchael Lonsdale, Bernadette Lafont, Isabelle Weingarten, e que trouxe a glória a Françoise Lebrun.


A acompanhá-los, num díptico de programação, os filmes de Philippe Garrel, também restaurados, com a sua supervisão, os do início da sua obra, das décadas de 60 e 70, que marcariam para sempre o seu cinema posterior, e ainda Coração Fantasma (1995), produzido por Paulo Branco, e Os Amantes Regulares (2005), um dos seus filmes mais aclamados, onde regressa ao Maio de 68, reinventando-o como se fosse de uma nova geração (a do seu filho Louis, que desempenha um dos papéis principais).


Garrel tinha apenas 16 anos quando, em 1964, realiza Les Enfants désacordés, o mesmo ano em que sai o primeiro filme de Eustache, As Más Companhias, título que mais tarde, quando faz O Pai Natal tem Olhos Azuis, produzido por Jean-Luc Godard, utilizará para juntar num díptico os dois primeiros filmes, rebaptizando o primeiro Os de Robinson. Os cineastas admiravam-se mutuamente, as obras de ambos são ferozmente pessoais e encontramos várias rimas nos filmes de um e do outro, para além da “partilha” de um dos actores fétiche da Nouvelle Vague, Jean-Pierre Léaud. “L’Enfant secret não é La Maman et la putain mas, dez anos depois, é o que mais se aproxima dele.” (Serge Daney)
Poderíamos pegar nas palavras de Alain Philippon na sua monografia sobre Eustache e a propósito deste, e estendê-las também à obra de Garrel, para afirmar que ambos ocupam um lugar simultaneamente “marginal” e central no cinema francês, dois cineastas “Inclassificáveis”, “esquivos”, mas dois dos maiores, ou os dois maiores, surgidos no período que se seguiu imediatamente à Nouvelle Vague.


“Em Eustache, a narrativa, a escrita, a lenda, tudo o que faz um filme tem origem em algo vivido, na recordação de um instante fugaz, de uma conversa, de uma época, de um acontecimento.” – Azoury. Mas, e continuamos a citar, “nenhum dos seus filmes se fecha, e cada um abre-se para uma multiplicidade de fragmentos de sentido, de possibilidades, que se desenham e redesenham sem cessar, entrechocando-se e quebrando-se perpetuamente no jogo de uma escrita que resiste a qualquer homogeneização”. Esta é a obra de um autodidata que aprendeu com a leitura dos grandes filmes, como ele próprio diz, de Renoir, Dreyer e Mizoguchi, de Murnau e de Chaplin, de Lubitsch, que trabalhou com Rivette, Rohmer, Biette, Moullet e Paul Vecchiali, uma obra breve (duas longas de fiçcão, alguns documentários onde o realizador se coloca e nos coloca perante os mistérios do “real”, e um punhado de curtas), uma obra que vê do outro lado do espelho e era a primeira intrusão de um outro meio social e cultural no mundo pequeno-burguês dos da Nouvelle Vague, como diria um deles, Jean Douchet, que admirava Eustache e se tornaria um dos seus cúmplices, uma obra que amiúde “queima”, que arrisca, que mina as nossas certezas, uma obra onde o íntimo nos faz chegar ao coração de uma memória comum, a história francesa de várias gerações.
 
Nascido no seio do meio artístico parisiense – o seu pai era actor e marionetista e fora um empenhado combatente da Resistência –, Philippe Garrel cedo partiu para o mundo e começou, enfant secret, a filmar muito jovem um cinema contemporâneo da vida, da sua vida, mas também testemunho da sua geração, um cinema febril, onde, como escreveu Bernard Eisenchitz “cada imagem é única e é produto de uma luta, de uma aposta vital”. Em 1969 encontrou Nico em Roma, a bela Nico, a maravilhosa Nico, a amada Nico (Jorge Silva Melo), admiradora intrigada, estrela da Factory de Warhol e que ali gravara o disco “The Velvet Underground & Nico”. Garrel completara 21 anos e a sua quarta longa, Le Lit de la vierge, e procurava uma banda sonora para o filme. Ela propôs-lhe a sua canção “The Falconer”, começando ali uma relação amorosa e artística que duraria 10 anos e um punhado de filmes. “A câmara no lugar do coração”, dizia Nico de Garrel. Vamos vê-la em La Cicatrice intérieure, 1971; Athanor, 1972; Les hautes Solitudes, 1974; Un Ange passe, 1975; Le Berceau de cristal, 1975; e Le Bleu des origines, 1978, restaurado e remontado em 2025. Filmes maravilhosos e miraculosos, onde Garrel explora a “fronteira invisível entre a época, altamente psicadélica, e uma linha do tempo que terá perdido a sua cronologia, tornando-se mitológica” (Azoury). M’espanto às vezes, diríamos, espectadores, quando nós neles os olhos pomos. Alguns destes filmes têm sido raramente projectados e é um privilégio e um espanto poder vê-los agora, junto com os outros [e veremos ainda Nico em The Chelsea Girls (1966), de Warhol].
“Os seus filmes continuam a ser meteoros, vêm do coração, passam-nos pela vida, como acidentes celestes.” (JSM)


Dizia Eustache: “Os filmes que faço são autobiográficos como a ficção pode ser.” Citando Cesariny, às avessas, há “por aqui uma grande razão”, “uma grande realmente razão” para dizermos que Garrel é son semblable, son frère: irmãos desajustados na sua força, insolência e sabedoria, colhendo desabrigados gestos, feridos de morte pelos amores e pelas cicatrizes interiores.
 
Philippe Garrel,  “Les ministères de l’art”, Art Press Nº 67, Fev 1983
 “O Jean está sentado ao pé de mim eu estou sentado ao pé do Jean (e ele arranca no seu velho carro preto e vai-se embora).
[…] Quando é que começámos a fazer arte? Em 1963-1964.
O Jean Eustache apagou-se em 1981. Pôs fim aos seus dias…”
 
[Flashforward: Grande plano do Philippe e do Jean juntos. No cinema]