A Herdade "contracampo" de Torre Bela

Por estes dias de entre Abril e Maio, convidamo-lo a ver dois grandes filmes que nos ajudam a perceber Portugal: Torre Bela (1977), de Thomas Harlan, e o “seu contracampo”, A Herdade (2020), de Tiago Guedes. 

A HERDADE, de Tiago Guedes (versão série: RTP1, 30 de Abril, 21h45, episódios 1 e 2; 1 de Maio, 21h45, episódios 3 e 4; também disponível em Bluray e DVD).


TORRE BELA, de Thomas Harlan (das 9h do dia 1 de Maio às 24h do dia 3).


Por estes dias de entre Abril e Maio, convidamo-lo a ver dois grandes filmes que nos ajudam a perceber Portugal: Torre Bela (1977), de Thomas Harlan, e o “seu contracampo”, A Herdade (2020), de Tiago Guedes.


Em 1975, o realizador alemão Thomas Harlan estava em Portugal e filmou, ao longo de 8 meses, a ocupação da herdade da Torre Bela pelos camponeses das aldeias vizinhas, que, ganhando voz e tornando-se assim agentes da história do Portugal de então, ali criaram uma cooperativa. Um dos mais notáveis documentários feitos no imediato pós-25 de Abril, Torre Bela, que estrearia no festival de Cannes em 1977, é, como Serge Daney escreveu nos Cahiers du Cinéma dois anos mais tarde, na altura em que Paulo Branco o estreava em sala em Paris, “um desses documentos extraordinários que surgem por vezes no coração das lutas ou das situações-limite, quando a obstinação em ‘continuar a filmar’ leva a melhor sobre todas as ideias preconcebidas ou não, comprometidas ou não, daquele que filma.”


Em 2020, estreava, na Selecção Oficial em Competição do festival de Veneza, A Herdade, o filme de Tiago Guedes produzido por Paulo Branco, a saga de uma família e de João Fernandes, o carismático proprietário (uma espécie de “príncipe anarquista e progressista, bigger than life”) de um dos maiores latifúndios na Europa, a sul do Tejo, um fresco de Portugal na segunda metade do século XX, dos anos de ditadura, atravessando a revolução de Abril, aos nossos dias.


O realizador Thomas Harlan disse em entrevista aos Cahiers du Cinéma que “Torre Bela é, acima de tudo, um filme sobre a tomada da palavra […] uma vez que é ao falar que as personagens se descobrem, ganham consciência da sua existência e a partir daí podem agir e tornar-se personagens dramáticas.” E Roberto Perpignani, um montador que trabalhou, entre outros, com Orson Welles, Bertolucci e os irmãos Taviani, e que Harlan convidara para montar Torre Bela, teve aí um papel fundamental, como refere o realizador. Paulo Branco, que conhecera Perpignani através de Harlan, e que viria a trabalhar com ele noutros filmes, achou que seria o montador ideal para A Herdade. E foi assim que o abordou, perguntando-lhe “se ele não queria montar o contracampo do Torre Bela.” Foi um desafio fascinante para Perpignani, que, tal como em Torre Bela, agora “em contracampo”, trouxe, através da sua montagem, uma coesão que ajudou também a fazer de A Herdade o filme extraordinário o que ele é.


E se em Torre Bela falávamos da “conquista da palavra” como forma de as personagens se assumirem e crescerem, n’A Herdade poderíamos salientar, pela sua força dramática e profundidade, os silêncios e os olhares, sempre em tensão, e no tom justo, neste filme de “circularidades” (também nos movimentos de câmara), com uma montagem a que Perpignani traz uma espécie de “poesia narrativa”.


Mas, em ambos os filmes, Torre Bela e o “seu contracampo” A Herdade, as contradições que se viviam (dentro do grupo dos ocupantes da Torre Bela, ou na herdade e na família de João Fernandes) não estão submetidas a um discurso que as interpreta. As “personagens” são homens e mulheres de carne e osso, com as suas nuances, as suas virtudes e os seus defeitos, e também as suas próprias contradições (Wilson, tal como o personagem de ficção João Fernandes são “bigger than life”), o que dá, a um e outro filme, um carácter universal.


E, em círculo, fechamos com Daney, e as suas palavras sobre Torre Bela: “Raramente se terá visto melhor o fazer e o desfazer de uma colectividade singular em si e feita ela própria de singularidades, apanhada num processo político em que ela é a verdade cega e o ponto da utopia.” Troque-se “colectividade” por “herdade” e poderíamos estar a falar do filme de Tiago Guedes.

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