Algumas notas para um balanço do ano 2020 - Medeia Filmes | Leopardo Filmes

Neste “ano de todos os perigos” tivemos de reinventar-nos. Na produção, na distribuição, na exibição. Produzimos um filme, A Criança, primeira obra de dois jovens realizadores franceses, Marguerite de Hillerin e Félix Dutiloy-Liegeois, rodada em Portugal; chegámos perto dos 4 milhões de espectadores espalhados pelo mundo com A Herdade, de Tiago Guedes, estreado no final de 2019; tivemos o filme de abertura no primeiro festival classe A do ano (Mosquito, de João Nuno Pinto, em Roterdão); os filmes que produzimos (A Herdade, Mosquito, Ordem Moral, de Mário Barroso) circularam (e receberam prémios) em festivais no mundo inteiro.

Como distribuidores, estreámos 51 filmes (entre eles os filmes portugueses Mosquito e Ordem Moral; não estamos a adiar as nossas estreias, e somos talvez um caso único). Na exibição, continuámos o nosso trabalho em Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Braga e Figueira da Foz; o cinema Medeia Nimas, em Lisboa, apesar dos três meses de encerramento obrigatório, apesar das restrições de lotação e horários, em 2020 teve o maior número de espectadores dos últimos cinco anos. E fomos os responsáveis por vários outros dos “acontecimentos” cinéfilos do ano, referidos pelos media nos balanços recentes, como o ciclo dedicado à Nova Vaga Inglesa, no Nimas, os ciclos Buñuel ou Kurosawa, estreando filmes até à data inéditos em sala em Portugal, o ciclo “Roman Porno”, ou, já perto do final do ano, o ciclo “O Mundo de Wong Kar Wai”, que tem tido salas cheias, com muitos jovens a descobrir pela primeira vez no grande écran, em cópias restauradas em 4K, os filmes mais emblemáticos do cineasta de Hong Kong.  E, numa altura em que quase todos os festivais optavam pelo on-line, conseguimos levar a bom termo, e com sucesso, a organização da 14ª edição do LEFFEST, com uma programação elogiada cá e lá fora, e tivemos entre nós, realizadores, actores, escritores e artistas que partilharam com os espectadores portugueses, em sessões memoráveis, como foi o caso de Viggo Mortensen, as suas obras e o prazer do cinema, pelo cinema.


Sim, já foi por demais dito e redito que 2020 foi um ano atípico, quando, do segundo para o terceiro mês, surgiu um novo vírus que rapidamente se alastrou e criou uma pandemia global, da qual ainda não nos vimos livres.


A princípio estávamos talvez um pouco incrédulos, depois, apanhados no turbilhão dos acontecimentos, ficámos surpreendidos, e até assustados, com a rapidez com que tudo estava a acontecer. E daí ao fecho das salas de cinema, ao confinamento do país, foi um ápice. O que que fazer, perante uma situação que para todos nós era nova?


A seguir a um ano que tinha acabado com o enorme êxito de A Herdade (uma “dobradinha” rara, com a Selecção Oficial em Competição em Veneza e a selecção na secção Special Presentations em Toronto, a escolha portuguesa para os Óscares e mais de 80 mil espectadores em sala em Portugal), 2020 tinha começado bem. Como produtora, a Leopardo Filmes teve, logo em Janeiro, Mosquito a abrir o festival de Roterdão, um feito inédito para o cinema português. A Medeia Filmes, como exibidora, somava salas esgotadas no Nimas, com filas imensas que chegavam a dobrar a esquina do quarteirão. Não podíamos deixar desmoronar todo este trabalho. Durante o confinamento, mantivemos o contacto com os nossos espectadores, oferecendo-lhes, logo a partir da primeira semana e durante o tempo em que tivemos de permanecer nas nossas casas, uma “Quarentena Cinéfila” on-line, com uma selecção cuidada e diversificada de filmes, com folhas de sala e conversas com os realizadores, criando deste modo um “novo espaço público comum”, virtual e solidário, com as pessoas a verem e a discutirem os filmes nas redes, “mantendo-nos activos e preocupados com os outros e a vida social de que fazemos parte”, para citar um texto do filósofo José Gil, também ele um espectador e participante em sessões nas nossas salas. Muitos lhe chamaram “um verdadeiro serviço público”, no qual fomos pioneiros.


Ainda durante este tempo, como distribuidores, ampliámos o nosso trabalho com as plataformas de streaming, entre elas, a Filmin, dando continuação ao trabalho que vínhamos a desenvolver nas salas, subitamente interrompido, continuando aí filmes que tinham acabado de estrear e não tinham podido completar o seu percurso normal de estreia, entre eles Mosquito, ou Quarto 212, de Christophe Honoré, e as estreias que vinham de antes (muitos dos nossos filmes foram os mais vistos nesta plataforma), e a HBO. Dedicámos uma maior atenção ao que, de entre as nossas produções ia também passando nos canais televisivos.


E em Junho pudemos de novo voltar às salas e assim reencontrar “o apetite do mundo”, na feliz expressão de Peter Handke, que connosco partilhou este ano cerca de duas semanas, como jurado do LEFFEST. Com cuidados redobrados, lotação a metade, uso obrigatório de máscara, reabrimos o Nimas a 10 de Junho, data simbólica, com a exibição de Non, ou a Vã Glória de Mandar, de Manoel de Oliveira, seguido de uma conversa com o produtor Paulo Branco e o escritor Paulo José Miranda, e a estreia em sala em Portugal de O Anjo Exterminador, de Buñuel, um dos filmes de que mais nos lembrámos no confinamento, apresentado por Pedro Mexia.


Dadas as circunstâncias (e as restrições: depois veio a obrigatoriedade de fechar as salas mais cedo, seguiu-se o recolher obrigatório aos fins-de-semana, que ainda vigora), não podíamos baixar os braços, tínhamos de nos reinventar. E foi isso que fizemos, diversificando os horários das projecções, criando uma programação dinâmica, entre as estreias, que mantivemos ao mesmo ritmo, numa programação diversificada (oriunda de cinematografias dos vários cantos do mundo), e de qualidade, ficções e documentários. A maior parte delas foram filmes realizados no último ano, mas também estreámos, nos extensos programas dedicados a Buñuel e a Akira Kurosawa, vários filmes de dois dos maiores realizadores da história do cinema que nunca tinham estreado em sala em Portugal, repondo assim uma “dívida” de décadas para com essas obras na distribuição, e fizemos descobrir ao público português esse “género sumptuoso” vindo do Japão, como lhe chamou o crítico Jean-François Rauger, que é o “Roman-Porno”, com a estreia de 10 filmes que atingiram o estatuto de culto em cidades como Paris, Nova Iorque ou Madrid, para além de Tóquio, naturalmente, e que agora chegavam finalmente aos espectadores portugueses. Já quase no final do ano, fomos o primeiro país no mundo a organizar o programa “O Mundo de Wong Kar Wai”, celebrando os 20 anos de uma das suas obras mais icónicas, In the Mood for Love / Disponível para Amar, com a exibição de cinco dos mais importantes filmes do realizador, agora em cópias digitais restauradas em 4K, e que têm esgotado as salas. Da programação diversificada no Nimas, destacamos ainda o “diálogo” dos filmes em exibição com obras importantes da história do cinema, trazendo-as de novo à sala (e esgotámos várias sessões de O Leopardo, de Visconti, 2001, Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica, de Kubrick, Aconteceu no Oeste, de Leone, ou Deserto Vermelho, de Antonioni, entre outras), resgatando a sua memória, e a importância que continuam a ter, desafiando também os espectadores a novas leituras. E a presença, para discutir os seus filmes com o público, de realizadores (Tiago Guedes, João Nuno Pinto, Mário Barroso, Rita Nunes, Teresa Villaverde, Gabriel Abrantes, António-Pedro Vasconcelos, João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata), de actores (Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, João Pedro Mamede, Ana Vilela da Costa, Rodrigo Tomás, Maria de Medeiros, Marcello Urgeghe, João Nunes Monteiro, Filipe Duarte, Carloto Cotta, João Arrais, Teresa Madruga, Joana Barrios, Filipe Vargas, Luís Lima Barreto, Chico Diaz, Vitalina Varela, António Fonseca e Flávia Gusmão, entre outros), do director de fotografia Acácio de Almeida, dos argumentistas Carmo Afonso e David Phelps, de vários escritores, ensaístas e activistas.


A Herdade, de Tiago Guedes, depois da estreia estrondosa em 2019, de que atrás falámos, continuou o seu périplo por festivais no mundo inteiro, recebendo, filme, realizador e actores, vários prémios (e, em Portugal, foi o grande vencedor dos Prémios Sophia); chegou às plataformas de streaming (Filmin e HBO) e televisões (no canal franco-alemão Arte teve um sucesso gigantesco, com cerca de um milhão e meio de espectadores e muitos dias em primeiro lugar entre os programas do canal no Replay; na sua primeira passagem na RTP também chegou perto de um milhão de espectadores, e, com a segunda passagem ultrapassou-o largamente).


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