Cinema Nimas atinge cerca de 90 mil espectadores em 2025 e anuncia programação para 2026
O Cinema Medeia Nimas registou no ano de 2025 88.512 espectadores, um crescimento de 31,5% face a 2024, num contexto nacional marcado pela quebra continuada da frequência das salas de cinema e do fecho recente de várias. Num dos piores anos para a exibição cinematográfica em Portugal desde a década de 1990, estes números em claro contraciclo colocam o Nimas como um dos casos mais singulares do panorama exibidor português e, eventualmente, europeu.
Explorado pela Medeia Filmes, o Nimas realizou ao longo do ano 1.818 sessões, muitas delas esgotadas, com uma média de mais de 200 espectadores por dia, números pouco comuns numa sala de écran único, com uma lotação de 200 lugares. Ao todo, foram exibidos 459 filmes, entre os quais mais de 100 estreias nacionais, confirmando uma aposta clara no cinema contemporâneo, na criação portuguesa e numa programação editorialmente assumida.
Para Paulo Branco, produtor, distribuidor e exibidor, os resultados “foram absolutamente inesperados, mesmo para nós”, sublinhando “a aceitação e a relação com os espectadores, que ultrapassaram tudo o que podíamos imaginar”. O produtor destacou ainda que isso é fruto de um grande trabalho, levado a cabo por uma equipa empenhada, e “do prazer e da liberdade de programar uma sala de cinema”, comparando esta experiência à que viveu nos anos 70, em Paris, quando programava a sala do Action République.
Paulo Branco aponta a ausência de educação cinematográfica, a fragilidade da mediação cultural e a degradação da experiência em muitas salas como factores centrais da crise da exibição em Portugal. “As pessoas querem ver algo que valha a pena; caso contrário, ficam em casa”, afirma, defendendo que a sobrevivência das salas passa por uma programação exigente, coerente e pensada para espectadores reais.
Em 2026, o Cinema Nimas manterá a conjugação entre estreias e o cinema de repertório em cópias restauradas, colocando assim o cinema que hoje se faz em diálogo e em confronto com a história do cinema, relendo-a e recriando-a em permanência, e a produção portuguesa, reforçando a sua identidade enquanto sala de programação activa.
No cinema português, estão previstas várias estreias ao longo do ano, entre as quais MARIA VITÓRIA, de Mário Patrocínio (4 de Março), O MASSACRE DE GILLES DE RAIS, de Juan Branco (19 de Março), ENTRONCAMENTO, de Pedro Cabeleira (26 de Março), O BARQUEIRO, de Simão Cayatte (9 de Abril), um novo filme de Rita Azevedo Gomes, FUCK THE POLIS, no início de Maio, e MEMÓRIAS DO CÁRCERE, de Sérgio Graciano, a partir da obra de Camilo Castelo Branco, a 24 de Setembro.
Destacam-se ainda o novo Abdellatif Kechiche, MEKTOUB MY LOVE: CANTO DUE, em Março, seguido de SILENT FRIEND, de Ildikó Enyedi, com Tony Leung, RESSURRECTION, a nova obra monumental do chinês Bi Gan, ou LOS DOMINGOS, da espanhola Alaúda Ruiz de Azúa, vencedor da Concha de Ouro no festival de San Sebastián, entre as muitas estreias, ao ritmo de duas por semana, prestando uma grande atenção ao que de melhor o cinema contemporâneo dos quatro cantos do mundo nos traz.
Depois do maior ciclo dedicado a Alfred Hitchcock em décadas e da retrospectiva integral de João César Monteiro, com salas sempre cheias e sessões que se esgotam dias antes, a 19 de Fevereiro arranca o programa “Eustache e Garrel – Os Inclassificáveis do cinema francês”, que junta a retrospectiva integral de Jean Eustache, cujos filmes, à excepção de La Maman et la putain são inéditos comercialmente em Portugal, e uma retrospectiva dedicada a Philippe Garrel, colocando-os a par e em diálogo; no Verão terá lugar uma retrospectiva integral da obra de Agnès Varda, e mais tarde um grande ciclo Michael Haneke e a integral de Otar Iosseliani. Sempre com novas cópias restauradas.
Para Paulo Branco, os números de 2025 revelam uma transformação mais profunda na relação do público com o cinema. “Há qualquer coisa a passar-se”, afirma, sublinhando a chegada de novos espectadores à sala e defendendo que “descobrir filmes novos para novos espectadores é hoje uma das missões centrais do Cinema Nimas”.