Cinema Nimas programa ciclo intitulado «A Questão da Fé: Interrogações, dúvidas, negação na obra de grandes cineastas»
O ciclo tem início no dia 21 de Maio, com a exibição de O SANTO DOS POBREZINHOS, de Roberto Rossellini, e inclui obras de cineastas como Luis Buñuel, Robert Bresson, Andrei Tarkovsky, Carl Theodor Dreyer, entre outros. No dia 25 de Maio, terá lugar uma sessão especial de A PALAVRA, de Dreyer, seguida de uma conversa com Pedro Mexia e outros convidados.
Paul Schrader colocou esta epígrafe no seu livro O Estilo Transcendental no Cinema: "A religião e a arte / são linhas paralelas / que se intersectam somente no infinito, / e se encontram em Deus", do teólogo holandês Gerardus van der Leew. Este ciclo surgiu na sequência da estreia do filme Os Domingos, ainda em cartaz (e nele poderíamos também incluir, como antecipação, o filme de João Mário Grilo Os Olhos da Ásia, exibido a 13 de Maio no ciclo Viagem ao Extremo Oriente).
A Fé, que pode ou não ser questão de religião, sempre trouxe consigo interrogações e dúvidas, aceitação ou negação (perguntava Oliveira nas suas reflexões sobre o seu Palavra e Utopia: "Não há ateus convertidos? E crentes que perderam a fé?", ele que frequentemente citava Régio e o seu "crer não crendo"; num outro filme de Bresson, Pickpocket, Michel, o protagonista, diz: "Acreditei em Deus durante três minutos" e o realizador, que era católico, comentava que "poucas pessoas podem dizer que acreditaram em Deus durante tanto tempo").
Escolhemos uma dúzia e meia de filmes, todos eles de grandes cineastas, todos eles obras-primas, de várias épocas e cinematografias (mas muitos outros se poderiam acrescentar). Organizamos ainda, a meio do programa, a seguir à projecção de Ordet, de Dreyer, um debate sobre estas questões, colocadas por realizadores que sempre assumiram a sua religiosidade, como Bresson ou Rossellini, ou, por outro lado, Buñuel, que, tendo tido em criança uma educação religiosa, se dizia "ateu, graças a Deus" (e em cuja obra a religião teve sempre forte presença, com filmes que foram proibidos e o realizador a ser condenado à prisão e excomungado). Obras de despojamento e ascetismo, como as daqueles dois cineastas, ou Dreyer, Pasolini e Godard, outras, barrocas, como o filme de Verhoeven, e tanto umas como outras acabariam por causar escândalo.
Para finalizar (ou começar de novo): não será o cinema um acto de "revelação" e também ele algo da ordem do milagre? E não é, enquanto espectadores, uma espécie de fé, e uma certa dose de inocência, o caminho para encontrarmos a sua "verdade"?
Consulte aqui o programa completo.