Ciclo "FOR EVER GODARD" – Cinema Medeia Nimas

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Cinema Medeia Nimas - Lisboa

“Não faço grande diferença entre os filmes e a vida, diria até que os filmes me ajudam a viver.”

Jean-Luc Godard


Jean-Luc Godard (1930-2022) foi o cineasta cuja obra e pensamento mais influência tiveram (e continuam a ter) no cinema e noutros domínios artísticos contemporâneos. Abriu caminhos para o futuro do cinema, re-fez a visão da sua história, quebrou barreiras, revolucionou. Foi um artista total, livre, prolífico e agitador, lúdico e profundo. Genial. 


Morreu a 13 de Setembro de 2022 (contava que Anne-Marie Miéville, a sua companheira, dizia que se ele morresse primeiro iria escrever no seu túmulo: “Pelo contrário…”), e deixou-nos um legado inigualável.


A 22 de Fevereiro de 2024, a Leopardo Filmes vai lançar nas salas portuguesas (nos cinemas Nimas, em Lisboa, Teatro Campo Alegre no Porto, Charlot, em Setúbal, TAGV em Coimbra, Theatro Circo de Braga, e CAE da Figueira da Foz, entre outros), um programa de 11 dos mais belos filmes de Godard, das grandes obras do início da Nouvelle Vague a Nome: Carmen e Valha-me Deus.


Filmes nos quais, citando Cesariny, propôs à circulação alguns mitos maiores, alguns mitos menores, integrando-os no quotidiano, como se escreveu nos Cahiers du Cinéma no número que lhe foi dedicado aquando da sua morte (“nascemos, crescemos e morremos entre os mitos que fundam a civilização à qual pertencemos”, ou, parafraseando Pierrot, aliás Ferdinand: somos feitos de mitos e os mitos são feitos de nós). Trouxe Jean Seberg e o fantasma de Bogart para as ruas de Paris em O Acossado (1960), filme rimbaudiano e de referência da Nouvelle Vague; levou-nos ao encontro de Brigitte Bardot e Fritz Lang, Homero e Hollywood em O Desprezo (1963); visitou o film noir, o affaire Ben Barka e Walt Disney (e Marianne Faithful comoveu-nos tanto quando cantou a cappella “As Tears Go By”) em Made in USA (1966); construiu uma alegoria sobre a guerra em Os Carabineiros (1963), escrito com Rossellini, onde as personagens se chamam Ulisses, Miguel Ângelo, Vénus e Cleópatra;

Orfeu/Lemmy Caution/Constantine salva Eurídice/Natacha/Karina do reino das trevas na distopia de Alphaville (1965)…


Num regresso em grande com Nome: Carmen (1983, Leão de Ouro em Veneza – longínquo remake de Pierrot…? – temos grandes momentos proporcionados por Godard lui-même, autoractor no papel do Oncle Jean, personagem burlesco, espécie de Diógenes do nosso tempo, como escreveu Daney). Em Valha-me Deus (1993), reescreve nos dias de hoje o mito de Anfitrião e Alcmena, teatralizado por Plauto, Molière ou Kleist.

Um destes filmes é inédito comercialmente nas salas portuguesas: Detective (1985), “filme-charada, filme-enigma”, como lhe chamou Jorge Silva Melo, “filme dos lugares de espera, dos lugares de passagem, […] entre aviões, corredores, varandas, bancos de café, camas”, com um extraordinário Johnny Halliday.


Trabalhou com grandes actores, alguns dos quais desde sempre associámos ao seu cinema, como Jean-Paul Belmondo, que a partir de O Acossado passou a ser um dos rostos emblemáticos da Nouvelle Vague, ou Anna Karina (não houve ninguém que não tivesse amado Anna Karina), que veremos aqui em O Soldado das Sombras, Uma Mulher é uma Mulher, Pedro, O Louco e Made in USA. Foi buscar Brigitte Bardot, já tornada mito, para lhe dar o grande papel da sua vida em O Desprezo, mostrou-nos Johnny Halliday, com uma “fragilidade interior” que acaba por ser a sua força, como nunca víramos no cinema francês, no intrigante Detective… Em Nome: Carmen Marushka Dmeters lembra-nos Natalie Wood. E, ainda neste ciclo de filmes, Eddie Constantine, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Baye, Emmanuelle Seigner, Julie Delpy, Gérard Depardieu…


Vários dos grandes pares da história do cinema, devemo-los a Godard: Belmondo-Seberg; Piccoli-Bardot; Belmondo-Karina. Sem esquecermos as participações amigáveis de grandes cineastas como Samuel Fuller em Pedro, o Louco (“Film is like a battleground… Love, hate, action, violence, death. In one word, emotion!”), ou Fritz Lang em O Desprezo.


Estes 11 filmes são também uma espécie de súmula do “programa Godard”, se é que se pode fazer uma: os “éxitos” dos anos 60, a re-visita de géneros e estilos, que “transfigura” ou “dinamita” à sua maneira, o uso da citação, a “colagem”. O filme policial e de espionagem em O Soldado das Sombras, história de um desertor que luta na clandestinidade durante a Guerra da Argélia (1960, três anos proibido em França e que só se estrearia em 1963); a ficção científica em Alphaville (Urso de Ouro em Berlim), uma ideia de comédia musical em Uma Mulher é uma Mulher (1961; um dos seus filmes de que Godard mais gostava, o “da descoberta da cor, do som directo e do Scope”); o cinema de “guerra” e de “propaganda” em Os Carabineiros, a tragédia em O Desprezo, talvez o mais clássico dos seus filmes …


Godard, nosso contemporâneo. A sua obra continua fulgurantemente viva e vamos de novo vê-la!
11 vezes GODARD. “C’est beau ça, hein!”


O ACOSSADO / À bout de Souffle (1960) Restauro 4K
O SOLDADO DAS SOMBRAS / Le petit Soldat (1963)
UMA MULHER É UMA MULHER / Une Femme est une femme (1961)
OS CARABINEIROS / Les Carabiniers (1963) Restauro 4K
O DESPREZO / Le Mépris (1963) Restauro 4K
ALPHAVILLE (1965) Restauro 4K
PEDRO, O LOUCO / Pierrot le fou (1965)
MADE IN USA (1966)
NOME: CARMEN / Prénom Carmen (1983)
DETECTIVE / Détective (1985; inédito comercialmente em Portugal)
VALHA-ME DEUS / Hélas pour moi (1993)