CICLO – A “Nova Vaga” Inglesa: 5 Realizadores | 9 Filmes - A partir de 14 de Agosto

Com início a 14 de Agosto, prolongando-se pelo mês de Setembro, a Medeia Filmes propõe um ciclo, uma mostra de 9 filmes de 5 realizadores da “British New Wave”, a “Nova Vaga” inglesa, que vão do final da década de 50 e entram pelos anos 60 dentro. São eles: Tony Richardson, Karel Reisz , Lindsay Anderson, Richard Lester e Alexander Mackendrick (sendo Mackendrick um caso à parte). Tal como os da “nouvelle vague francesa”, alguns deles tinham começado a escrever críticas de cinema, primeiro na revista Sequence, depois na Sight & Sound.

“the long-distance run of an early morning makes me think that every run like this is a life”

Alan Sillitoe, The Loneliness of the Long-Distance Runner


Estes jovens realizadores vinham do chamado “free cinema” dos anos 50, uma das primeiras manifestações de um movimento cultural mais alargado, que incluía sobretudo uma nova geração de escritores que desafiava a ordem social e cultural vigente. Os “angry young men”, como ficaram conhecidos, criticavam ferozmente as instituições inglesas, e as suas obras debruçavam-se nas vidas do dia-a-dia de personagens também elas anti-establishment da lower-middle-class e da working-class. Entre eles, destacavam-se o romancista Alan Sillitoe (alguns destes filmes foram adaptados de célebres obras suas) e o dramaturgo John Osborne, o autor de Look Back in Anger, obra arquetípica do movimento.


O cinema inglês saía assim dos estúdios e vinha para as ruas, confrontando-se com a realidade do dia-a-dia da Inglaterra de então, e participando activamente nela. Seduzido pela youth culture, os seus personagens eram jovens como os seus realizadores.


Saturday Night and Sunday Morning (1960, Karel Reisz), adaptado do romance homónimo de Alan Sillitoe, continuava a abordar a vida da classe trabalhadora do norte de Inglaterra que já havia transformado o teatro e a literatura ingleses e o seu (anti-) herói era ele também um “angry young man”. O mesmo acontecia com The Loneliness of the Long Distance Runner (1962, Tony Richardson, também adaptado de Sillitoe) ou This Sporting Life (1963, Lindsay Anderson). E se, à semelhança dos filmes da nouvelle vague francesa, a maioria destas obras se centrava nos interesses, preocupações e angústias de homens jovens, A Taste of Honey (1961, Tony Richardson) dava-nos o retrato de uma jovem mulher e adaptava uma peça da dramaturga Shelagh Delaney.

Estes filmes viriam também a revelar uma nova geração de talentosos actores, entre eles Albert Finney, Alan Bates, Tom Courtenay, Rita Tushingham e Richard Harris.


A meio da década, o foco dos filmes destes realizadores voltou-se para Londres, agora palco de uma florescente cena musical e da moda onde o mundo inteiro colocava o olhar. E a “Swinging London” começava a acolher uma série de filmes, alguns deles sobre personagens desajustadas, que, de um certo modo, não conseguiam, por uma razão ou outra, integrar em pleno este boom, como The Knack… And How to Get It, de Richard Lester (Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1965).

Foi também nesta altura, em que crescia de tal forma a popularidade dos músicos, uma popularidade que os actores e actrizes não conseguiam atingir, que Tony Richardson escolheu Mick Jagger, dos Rolling Stones, para ser o protagonista de Ned Kelly, a história do famoso fora-da-lei australiano, uma obra que adquiriria o estatuto de culto.


E no final da década, Lindsay Anderson traz-nos If… (1968, Palma de Ouro em Cannes 1969), um dos gritos rebeldes mais inesquecíveis da história do cinema, protagonizado por Malcolm McDowell, que será, poucos anos depois, o protagonista de Laranja Mecânica, de Kubrick.


Alexander Mackendrick, um caso singular, começou na publicidade (que desprezava, embora reconhecesse que tinha sido uma boa escola), trabalhou no departamento de propaganda do exército britânico durante a Segunda Grande Guerra, fez documentários no pós-guerra e deu-nos algumas das melhores comédias dos estúdios Ealing – onde entrara ainda nos anos 40 –, carregadas de ironia e de um humor mordaz. Depois de Lady Killers (1955) deixava Inglaterra e partia para Hollywood, antecipando aquilo que Richardson ou Reisz fariam depois. Mas, no fundo, também ele foi uma espécie de “angry young man”, um outsider em luta para fazer os filmes que queria, que, com o seu perfeccionismo, entrava frequentemente em desacordo e em confronto com os seus produtores. Veremos aquele que é considerado a sua obra-prima: Sweet Smell of Sucess (1957), depois do qual voltou para Londres, e andou até ao fim da sua vida entre um e o outro lado, tendo realizado apenas mais três filmes – veremos também A High Wind in Jamaica (1965), um projecto de longa data, filmado no Reino Unido, elogiado pela crítica, no qual mais uma vez entrou em conflito com os produtores. Dedicou a última parte da sua vida ao ensino.


P.S. 1. O buzz à volta de todo este movimento e da cena londrina dos anos 60 levou vários realizadores do continente a querer filmar ali. Um deles foi Michelangelo Antonioni, que rodou em Londres uma das suas obras-primas: Blow-Up (1966, premiado em Cannes), com vários jovens actores ingleses (David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sara Milles, Jane Birkin…), que veremos também no Nimas, em cópia digital restaurada, nos dias 7 e 16 de Agosto.

        2. De modo inverso, o realizador Joseph Losey deixou a sua América natal e veio para Inglaterra no início dos anos 50, onde refez a sua carreira e filmou as suas maiores obras. Ah, mas isso serão contas de outro rosário, i.e., de outro capítulo deste salto inglês… (to be continued…)


PROGRAMA:


This Sporting Life (1963), Lindsay Anderson
If... (1968), Lindsay Anderson
A Taste of Honey (1961), Tony Richardson
The Loneliness of the Long Distance Runner (1962), Tony Richardson
Ned Kelly (1970), Tony Richardson 
Sweet Smell of Success (1957), Alexander Mackendrick 
A High Wind in Jamaica (1965), Alexander Mackendrick 
Saturday Night and Sunday Morning (1960), Karel Reisz
The Knack... and How to Get it (1965), Richard Lester



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