Ciclo François Truffaut – Ao Sol da Nouvelle Vague

02.07 15.07

Cinema Medeia Nimas - Lisboa

“Todos os filmes de Truffaut contêm um ou mais momentos (diferentes de acordo com a sensibilidade do espectador), que nos deixam uma recordação precisa, marcante e indelével, mesmo passados 20 ou 25 anos.”

Luc Moullet
 
A vida era o cinema
 
François Truffaut (1932-1984) marcou, como cineasta e como crítico, o cinema moderno. Fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rhomer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema.
No início dos anos 80, com o grande sucesso de O Último Metro, chegou a ser considerado um “cineasta popular”, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos. Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só Fahrenheit 451 e A Noite Americana ficam, por enquanto, de fora).


Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.”


 Como sabemos, a história de qualquer arte, está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes Disparem sobre o Pianista, Beijos Roubados ou Na Idade da Inocência. É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.
 
Truffaut e os actores
 
“No cinema de François Truffaut, as actrizes e os actores ocupam um lugar absolutamente central. Eles são tanto a carne como o centro nervoso dos seus filmes. Desde a sua primeira longa-metragem, Os Quatrocentos Golpes, impõe um novo corpo, o de Jean-Pierre Léaud, que vai, ao longo do tempo, tornar-se o seu duplo. Juntos, inventarão uma nova forma de representar que navega entre o natural e a estilização. De filme em filme, Truffaut trabalha com os maiores actores e as maiores actrizes do seu tempo, de Charles Aznavour a Fanny Ardant, passando por Jeanne Moreau, Françoise Dorléac, Marie-France Pisier, Michael Lonsdale, Charles Denner, Delphine Seyrig, Catherine Deneuve, , Claude Jade, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Lafont, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Gérard Depardieu, Jean-Louis Trintignant, etc. Em cada ocasião, o seu desafio consiste em integrar esses actores e actrizes de personalidade forte no seu mundo, sem, no entanto, fazer com que percam a sua singularidade.”
Cahiers du Cinéma
 
“Muitas vezes, os actores vivem as suas emoções e deixam-se levar por elas. O François sabia até onde nos poderia deixar ir, para depois voltar a pegar-nos, e nos segurar. […] Por exemplo, o fim das cenas deveria ser pontuado de modo preciso. E dizia: ‘É preciso encher o écran, ter gestos mais amplos, não abortar os movimentos’.”
Catherine Deneuve
 
“Com ele, era uma linguagem de paixão. Todos os actores dos filmes de Truffaut têm o tom Truffaut, inimitável. Basta ver o Léaud, ou o Denner: ‘Sim, então fazemos assim, hem, estás a ver?’. Para chegar a este tom, bastava escutá-lo, olhar para ele. […] O que ele fez com o Jean-Pierre Léaud, é absolutamente deslumbrante. Os seus filmes são uma espécie de cursos intensivos para jovens actores.”
Gérard Depardieu