Ciclo "Ingmar Bergman" (continuação)

19.03 15.04

Cinema Medeia Nimas - Lisboa

Como conta Bergman na sua autobiografia, trocou cem soldadinhos de chumbo por uma "lanterna mágica" que o seu irmão recebera como presente de Natal. E quando pela primeira vez rodou a manivela do aparelho para ver o filme que nele vinha incluído, Frau Holle, uma deusa do amor dos países nórdicos, apareceu-lhe na parede um prado onde dormia uma jovem mulher, que "acordava, sentava-se, levantava-se lentamente, estendia os braços, voltava-se e desaparecia pela direita. Quando continuava a rodar a manivela, a rapariga estava de novo deitada, acordava de novo e refazia exactamente os mesmos gestos. Ela mexia-se." A descrição de Bergman, que ao longo da sua vida se recordava com grande nitidez desta sua primeira projecção, serve-nos para falar de uma espécie de circularidade de uma obra (apud João Bénard da Costa), à qual voltamos, uma e outra vez, aos seus percursos, às suas actrizes e aos seus actores (e quão extraordinária é a sua troupe de actores: Liv Ullmann, Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Erland Josephson, Birger Malmsten, Eva Dahlbeck, Harriet Andersson, Maj-Britt Nilsson, Max von Sydow, Ingrid Bergman, Gunnar Björnstrand, e um grande etc), às suas personagens, aos seus sonhos e aos seus pesadelos, às suas perturbações e vertigens, aos seus demónios, às suas “horas do lobo”, às suas taras, às suas “impossibilidades”, à prática da arte enquanto ritual, por vezes exorcismo até, na busca da satisfação de uma necessidade, para nela nos perdermos e depois nos reencontrarmos, para logo de novo nos voltarmos a perder, num eterno retorno.