Ciclo — Éric Rohmer ou o Génio do Moderno Cinema Francês — 4º Capítulo

26.05 08.06

Cinema Medeia Nimas - Lisboa

4º Capítulo – Adaptações literárias e outros


Uma parte da obra cinematográfica de Éric Rohmer foi alimentada pela literatura e o cineasta fez algumas adaptações notáveis, entre as quais se destacam A Marquesa d’O (1976), a partir da novela de Heinrich Von Kleist, e Perceval, o Galês (1978), inédito em sala em Portugal, a partir de Chrétien de Troyes, que o próprio Rohmer colocou de forma genial em verso – “Ao contrário que que se diz habitualmente, a poesia é mais fácil de entender do que a prosa. Estes octossílabos estão mais próximos da língua falada actualmente, mesmo a de uma criança de seis anos, do que a própria prosa muito escrita através da qual o leitor francês de hoje é convidado a ler o texto de Chrétien de Troyes” (Éric Rohmer).


A Marquesa d’O é não só um dos seus grandes filmes, que teve um enorme êxito, mas também a melhor das adaptações de Kleist para o cinema. Rohmer seguiu “palavra a palavra” o texto de Kleist, afirmando que “rejuvenescer uma obra não significa modernizá-la mas sim devolvê-la ao seu tempo”, “pintar o mundo de outra época com o mesmo tipo de detalhes com que pintara o mundo de hoje nos ‘Contos Morais’ ”. E é um equivalente disso que vai trabalhar depois em Perceval, o Galês, resgatando para o cinema as formas de expressão medievais: “Quero mostrar como as pessoas se viam a si mesmas na Idade Média”.


Espírito inquieto, Rohmer sempre procurou novas potencialidades expressivas para a linguagem do cinema. E alguns dos filmes que por diversas razões foi realizando fora das séries, aos quais ele próprio chamou “pequenos intermédios” tinham um carácter menos programático e permitiam-lhe uma maior liberdade. 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle (1987), é um filme-compêndio com 4 histórias curtas feito a meio da série “Comédias e Provérbios”;  A Árvore, o Presidente e a Mediateca (1993) e Os Encontros de Paris (1995) surgem pelo meio dos “Contos das Quatro Estações” (os dois primeiros terão também agora a sua estreia comercial em Portugal). Como referem Carlos F. Heredero e António Santamarina (Éric Rohmer, ed Cátedra), nestes filmes aparecem preocupações referenciais como o urbanismo, a arte moderna e o mercado da arte, o dinheiro, o mundo rural, a ecologia, e mesmo a política. Com as suas personagens em permanente itinerância, filmada com a habitual precisão topográfica de Rohmer. Filmes com uma textura “aberta e porosa”, filmes de “busca”, de uma grande liberdade e ligeiros de acordo com o espírito da Nouvelle Vague, estes “pequenos intermédios” têm uma importância muito especial na obra rohmeriana.